quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

MEMÓRIA POLÍTICA

Carlos Acelino

NOSSA TERRA – NOSSOS BAIRROS


Jardim Santiago: Um bairro, três Presidentes

 O primeiro AVC a gente nunca esquece.
             Já os seguintes...Pois, nesta segunda série sobre o Jardim Santiago, meu bairro de infância, quantas lembranças e um fato curioso: foi ali, em 20 de fevereiro de 2010, 50 anos após, no Bar do Bica, bem na reta da minha casa, quase em frente à da Dona Maria Gorda, que tive meu primeiro AVC. Bem ao lado, ficavam as casas da Maria Sasse, da tia Malvina e do Procópio. Na esquina a casa do João marceneiro, ao lado da venda do Benício e o salão de baile de frente para a BR 101, que animava nossos domingos. Lá de cima, Vilimane e a cacalhada da época atiravam levas de grama e barro para dentro do salão. Num daqueles domingos inesquecíveis, vi meu óculos voar para a pista do salão lotado, sacudido por uma touça, quando curtia da janela, a evolução dos dançarinos. Ali também o Vilimane, num passado não muito distante, circulava de Papai Noel, jogando cascas de berbigão pra galera, ao invés de balas. Num jogo do Bandeirante F.C., em Antônio Carlos, levamos o Papai Noel Vilimane na caçamba e o próprio caiu na porrada, de máscara, barba, bota e cajado, para defender seu time do coração. O AVC no princípio é uma espécie de morte consciente de nossas ações. Sentado à mesa, um formigamento nas mãos e pernas dificultava o descarte e o pouso das cartas. Ao levantar-me para ir ao banheiro desabei sobre as pessoas. Já não detinha mais o controle do meu corpo e dos meus movimentos. Lúcido, porém parcialmente paralisado, pedi socorro. Ainda tive tempo de ir até a farmácia do Nerildo com o Bica na boleia, e constatar uma pressão na estratosfera, para em seguida fazer os demais encaminhamentos. Números que eu desconhecia, pressão em 24, glicemia em 470, indicavam o desastre.
            Voltando às lembranças, o Bandeirante era o melhor time de São José, e jogava no terreno da Dona Doca, onde hoje estão o Compre Fort e o Shopping Ideal. Time bairrista e encrenqueiro, deu ao futebol catarinense o atacante Vavá, do Figueirense, cuja família morava ao lado do campo e a maioria dos filhos e netos de seu Vicente eram bons de bola. Nilton, Vavá, José, Pedro Vicente e mais tarde Xande faziam a festa, com Banana no apito. Grande Banana, que morreu de repente. Tanto fez pelo futebol de várzea de nossa terra e ficou no esquecimento. Na foz do Três Henriques ainda dava para tomar banho na beira-mar, vez por outra retornando para uma surra de mamãe, com sua mão aleijada. Antes porém mandava o Anselmo na frente, buscar a japona quadriculada. Imagine a cena, todo molhado de calção e apanhando de japona. Naqueles dias felizes meu pai certa vez deu uma surra imensa no “point”, o único cão que tivemos em casa. Foi lá que o Vado, irmão do Cici, recebeu o apelido de “farinha de trigo”, sem nunca ter sabido do mesmo. Acelino Pereira botava apelido em todo mundo e tinha um espeto para furar as bolas da rapaziada, quando caiam sobre sua horta. Procópio e João do Tino animavam nossa infância com seus jeitos irreverentes de visitar o bar e tomar os “pitocos”. Procópio de Almeida Barros era concunhado de Odilon Bertolino Sagaz, o Zico, Vereador da Serraria,  junto com Juca, João Amario Jacinto, irmão do prefeito Candinho, políticos mais presentes em nosso meio. Para alegrar as noites, Gido Gaiteiro cantava seus ternos de reis, com um séquito de baderneiros, engordando o cortejo e fazendo malvadezas. Numa época em que ninguém tinha uma arma, era fácil cantar terno de madrugada, com meia dúzia de bêbedos aprontando e jogando areia na gaita. Mesmo assim, na ingenuidade das brincadeiras, aconteciam as tragédias, como o assassinato do grandalhão Agenor pelo franzino Leopoldo Barbeiro, no bar do Cici, ponto final do ônibus ao lado do futuro prédio do João Tipiti, o João Machado, cunhado do saudoso João Martins. Para quem não sabe, “tipiti” é um cesto cilíndrico onde se põe a massa de mandioca que se vai espremer. Como as brincadeiras eram ingênuas e puras! Roubar laranjas nas terras do Chico Amaral com o Nego Mi e ser escoltado até a BR - 101 por ele, de espingarda em punho. Com tanta história, o Jardim Santiago deu ao município três presidentes da Câmara Municipal: José Natal Pereira, da rua Heriberto Hulse, Carlos Acelino, morador da Primeiro de Maio e o meu aprendiz de coroinha na capela Nossa Senhora de Lourdes, Neri Amaral, tudo com direito a banho de mar nos fundos da casa paroquial, sob o olhar atento e paternal do padre Cláudio.

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