segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Memória Política

Carlos Acelino 


Paródias no Fogão


Nas noites de geada em Angelina, José Coelho Netto sentava-se na pontinha do fogão a lenha, ao centro da grande cozinha, com seu inseparável chapéu de feltro, bem escovado e, naquela lareira quentinha, parodiava músicas da época e cantarolava cantigas de sua própria imaginação. Vez por outra, espiava por baixo da aba do chapéu, a confirmar se suas filhas o estavam observando. À espreita, na porta do quarto, elas se amontoavam, deliciadas com as letras trocadas das músicas, engraçadas, picantes e inteligentes. Disfarçava a atenção das filhas, com um olhar cúmplice, e retomava a sua cantoria. Devidamente aquecido, lavava os pés na gamela, vestia suas sandálias de couro, subia na cadeira para ligar o rádio antigo, na Tupi de São Paulo. Num quarteirão de distância, todo o centro de Angelina podia ouvir Tonico e Tinoco.
Suas toadas humorísticas cativavam a todos, e a disposição para o trabalho não deixava as filhas paradas.
Nascido em Angelina aos 7 de fevereiro de 1899, filho de José Sezerino Coelho Júnior e Benta Floriana Coelho, desde cedo ajudava o  pai na lavoura , de onde herdou o capricho do agricultor certinho, dedicado, com bastante terra e farta colheita de milho, batata-doce, cana, aipim e hortaliças.
A casa onde nasceu e veio a falecer em 1973, ficava no centro do distrito, e era referência a todo político que visitasse Angelina.
Dois meses antes de falecer sua primeira esposa, Dona Maria José Pessoa Duarte, elegeu-se Vereador pelo Partido Liberal, junto com Francisco Goedert, fazendo todos os 157 votos na cidade. Nessa época já era pai de 6 filhos; Romualdo, Alda, Carlos, Zilda, Zenir e Osvaldo, recém-nascido, falecido.  Secretariou os trabalhos de instalação da Câmara Municipal de São José, em 30.04.36, ao lado do Dr. Mário de Carvalho Rocha, tendo sido eleito 1º Secretário da Mesa Diretora. Legislou até novembro de 1937, quando Getúlio fechou as casas legislativas de todo o país. Em  25.04.38 tomou posse como Intendente distrital de Angelina, função que exerceu por bastante tempo.
Casou-se novamente com Dona Leopoldina Sens, com a qual teve mais 8 filhos: Nilda, Maria Celina, Osni, Dilma, Zoraide, Zeneide, Nilto e Ivo, falecido ao nascer. De sua prole dois filhos elegeram-se vereadores no já município de Angelina. Osni Coelho elegeu-se para os mandatos de 1970/1973 e 1989/1992. O irmão Nilto foi vereador por 3 legislaturas consecutivas e  Presidente da Câmara. O genro, Ezequiel Garcia (casado com Zoraide) foi vereador, prefeito e vice-prefeito. Outro genro, Arno Koerich (casado com Nilda) foi eleito por duas vezes vereador.
Toda uma vida dedicada à luta pela sobrevivência e a servir as pessoas, sua casa era visitada constantemente por políticos da época, como o Prefeito João Machado Pacheco Júnior, Jaú Guedes da Fonseca, grande orador e secretário do interventor Nereu Ramos; Ivo Reis Montenegro, Osmar Cunha e Celso Ramos.
Embora tenha concluído apenas o 4º ano primário, tinha uma belíssima letra e escrevia bastante. Preocupado com a formação e o futuro dos filhos, formou dez deles como professores, seis dos quais se aposentaram na profissão.
Na emancipação de Angelina, ocorrida em 07.12.61, tornou-se tesoureiro municipal do Prefeito nomeado Antônio Machado (o Machadinho); o qual foi morar em sua residência e suas filhas aproveitavam a oportunidade para engraxar os sapatos de Machadinho, que sempre lhes dava uns trocados.
Nas missas dominicais, o vigário da Paróquia, Oscar Longen, filho de Angelina, tinha a ajuda de José, que as freqüentava com seu único terno de linho creme, bem passado e engomado e o inseparável chapéu de feltro escovado. Os churrascos das festas de Angelina eram famosos na região. Eles tinham a mão e o capricho de José Coelho Netto, que em todas elas era o responsável pelo preparo, o corte perfeito e o tempero das carnes, no espeto de pau. Baixinho, gordinho, alemão de olhos azuis e vivazes, sua simpatia e o zelo com que tratava o churrasco, faziam o sucesso das festas.
Quando Antônio Machado assumiu a Prefeitura, José Coelho Netto formou um comitê de apoio, com cidadãos que conheciam bem a região. Dele faziam parte Osmar Koerich, Miguel de Souza, Leonardo Schmidt e Laudelino de Andrade. A liderança do grupo era de José, que percorria o município de jipe com Machadinho.
Nomeado exator de Angelina em 1955, aposentou-se pelo município que tanto ajudou, mas a pensão não ficou para a viúva. Após a eleição de seu filho Nilton, para vereador, ficou doente e foi internado no Hospital Florianópolis. Faleceu em 06.04.73 de câncer no esôfago, aos 73 anos, na véspera do casamento da filha Zoraide.
José Coelho Netto deixou um legado de trabalho e dedicação à causa pública. Mais do que justa a homenagem da cidade à sua memória: Na praça de Angelina, está o prédio da Prefeitura. E, numa placa, a referência maior ao ilustre cidadão josefense: Paço Municipal José Coelho Netto.

1ª Legislatura - Vereador JOSÉ COELHO NETTO


                JOSÉ COELHO NETTO e a 2ª esposa Leopoldina Sens



JOSÉ COELHO NETTO, com D. Leopoldina no casamento do filho Nilto com Zenir Koerich.
Os pais Osmar Koerich e Olinda Bunn posam à esquerda dos noivos. – 15.10.1966



           Casa de JOSÉ COELHO NETTO, Centro de Angelina.


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