Paródias no Fogão
Nas noites de geada
em Angelina, José Coelho Netto
sentava-se na pontinha do fogão a lenha, ao centro da grande cozinha, com seu
inseparável chapéu de feltro, bem escovado e, naquela lareira quentinha,
parodiava músicas da época e cantarolava cantigas de sua própria imaginação.
Vez por outra, espiava por baixo da aba do chapéu, a confirmar se suas filhas o
estavam observando. À espreita, na porta do quarto, elas se amontoavam,
deliciadas com as letras trocadas das músicas, engraçadas, picantes e
inteligentes. Disfarçava a atenção das filhas, com um olhar cúmplice, e
retomava a sua cantoria. Devidamente aquecido, lavava os pés na gamela, vestia
suas sandálias de couro, subia na cadeira para ligar o rádio antigo, na Tupi de
São Paulo. Num quarteirão de distância, todo o centro de Angelina podia ouvir
Tonico e Tinoco.
Suas toadas humorísticas
cativavam a todos, e a disposição para o trabalho não deixava as filhas
paradas.
Nascido em Angelina
aos 7 de fevereiro de 1899, filho de José Sezerino Coelho Júnior e Benta
Floriana Coelho, desde cedo ajudava o
pai na lavoura , de onde herdou o capricho do agricultor certinho,
dedicado, com bastante terra e farta colheita de milho, batata-doce, cana,
aipim e hortaliças.
A casa onde nasceu e
veio a falecer em 1973, ficava no centro do distrito, e era referência a todo
político que visitasse Angelina.
Dois meses antes de
falecer sua primeira esposa, Dona Maria José Pessoa Duarte, elegeu-se Vereador
pelo Partido Liberal, junto com Francisco Goedert, fazendo todos os 157 votos
na cidade. Nessa época já era pai de 6 filhos; Romualdo, Alda, Carlos, Zilda,
Zenir e Osvaldo, recém-nascido, falecido.
Secretariou os trabalhos de instalação da Câmara Municipal de São José,
em 30.04.36, ao lado do Dr. Mário de Carvalho Rocha, tendo sido eleito 1º
Secretário da Mesa Diretora. Legislou até novembro de 1937, quando Getúlio
fechou as casas legislativas de todo o país. Em
25.04.38 tomou posse como Intendente distrital de Angelina, função que
exerceu por bastante tempo.
Casou-se novamente
com Dona Leopoldina Sens, com a qual teve mais 8 filhos: Nilda, Maria Celina,
Osni, Dilma, Zoraide, Zeneide, Nilto e Ivo, falecido ao nascer. De sua prole
dois filhos elegeram-se vereadores no já município de Angelina. Osni Coelho
elegeu-se para os mandatos de 1970/1973 e 1989/1992. O irmão Nilto foi vereador
por 3 legislaturas consecutivas e Presidente da Câmara. O genro, Ezequiel Garcia
(casado com Zoraide) foi vereador, prefeito e vice-prefeito. Outro genro, Arno
Koerich (casado com Nilda) foi eleito por duas vezes vereador.
Toda uma vida
dedicada à luta pela sobrevivência e a servir as pessoas, sua casa era visitada
constantemente por políticos da época, como o Prefeito João Machado Pacheco
Júnior, Jaú Guedes da Fonseca, grande orador e secretário do interventor Nereu
Ramos; Ivo Reis Montenegro, Osmar Cunha e Celso Ramos.
Embora tenha concluído apenas o 4º ano primário, tinha
uma belíssima letra e escrevia bastante. Preocupado com a formação e o futuro
dos filhos, formou dez deles como professores, seis dos quais se aposentaram na
profissão.
Na emancipação de
Angelina, ocorrida em 07.12.61, tornou-se tesoureiro municipal do Prefeito
nomeado Antônio Machado (o Machadinho); o qual foi morar em sua residência e
suas filhas aproveitavam a oportunidade para engraxar os sapatos de Machadinho,
que sempre lhes dava uns trocados.
Nas missas
dominicais, o vigário da Paróquia, Oscar Longen, filho de Angelina, tinha a
ajuda de José, que as freqüentava com seu único terno de linho creme, bem
passado e engomado e o inseparável chapéu de feltro escovado. Os churrascos das
festas de Angelina eram famosos na região. Eles tinham a mão e o capricho de
José Coelho Netto, que em todas elas era o responsável pelo preparo, o corte
perfeito e o tempero das carnes, no espeto de pau. Baixinho, gordinho, alemão
de olhos azuis e vivazes, sua simpatia e o zelo com que tratava o churrasco,
faziam o sucesso das festas.
Quando Antônio
Machado assumiu a Prefeitura, José Coelho Netto formou um comitê de apoio, com
cidadãos que conheciam bem a região. Dele faziam parte Osmar Koerich, Miguel de
Souza, Leonardo Schmidt e Laudelino de Andrade. A liderança do grupo era de
José, que percorria o município de jipe com Machadinho.
Nomeado exator de
Angelina em 1955, aposentou-se pelo município que tanto ajudou, mas a pensão
não ficou para a viúva. Após a eleição de seu filho Nilton, para vereador,
ficou doente e foi internado no Hospital Florianópolis. Faleceu em 06.04.73 de
câncer no esôfago, aos 73 anos, na véspera do casamento da filha Zoraide.
José Coelho Netto deixou um legado de trabalho e
dedicação à causa pública. Mais do que justa a homenagem da cidade à sua
memória: Na praça de Angelina, está o prédio da Prefeitura. E, numa placa, a
referência maior ao ilustre cidadão josefense: Paço Municipal José Coelho
Netto.
1ª
Legislatura - Vereador JOSÉ COELHO NETTO
JOSÉ COELHO NETTO e a 2ª esposa Leopoldina Sens

JOSÉ COELHO NETTO, com D. Leopoldina no casamento do filho Nilto com Zenir Koerich.
Os pais Osmar Koerich e Olinda Bunn posam à esquerda dos noivos. – 15.10.1966
Casa de JOSÉ COELHO NETTO, Centro de Angelina.



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