A "cassação
branca" de Borges
Recostado na cadeira
em frente à baía da Ponta de Baixo, em sua belíssima residência, em 6 de
janeiro de 2000, o botafoguense e figueirense Walter Borges, aos 76 anos, abre um vasto arquivo memorial, com o
orgulho do cidadão honorário josefense que cumpriu com sabedoria e dignidade o
seu dever. Com ar de estadista, reclama apenas de dois dissabores de sua ampla
atividade política: não ter sido convidado para a festa dos 25 anos do
município de Angelina, que ajudou a emancipar e que, de cujas ofensivas
municipalistas foi até censurado pelo presidente do seu partido - o PSD, Gentil
Sandin, em ofício que guarda até hoje; e o episódio de caça as bruxas, em 1967,
que resultou em sua "cassação branca", quando uma comissão do 5 º Distrito
Naval, ou SNI, (não sabe precisar), reunida no gabinete do então Prefeito
Cândido Damásio, lhe inquiria e ameaçava cassar-lhe o mandato. Seu irmão, que
era da Marinha, alertou-o de que ele deveria ir para casa, pois seus direitos
políticos seriam cassados, a exemplo de nomes como Osmar Cunha, Osni Regis e
Fernando Viegas, cidadãos ditos "subversivos".
Informações
confidenciais do dossiê apontavam o independente vereador como proprietário de
uma frota de caminhões e uma rede de churrascarias, fortuna pretensamente
adquirida através da atividade política. Logo ele, vereador por 6 legislaturas,
1º Secretário da Câmara na segunda e, por três legislaturas Vice-Presidente,
sem nunca haver sido remunerado. Foi até chamado no palácio pelo então
governador Ivo Silveira, para explicar-se. Incomodado partiu do gabinete de
Candinho diretamente para casa, não mais retornando à Câmara Municipal. Nem se
recorda se o Presidente Jorge Destri registrou nos anais do Parlamento seu ato
de protesto ou sequer tenha convocado o suplente, Manoel Camilo Madalena.
Entristecido - afinal
foi um lutador incansável do legislativo josefense, membro atuante de quase
todas as comissões parlamentares, elaborador de centenas de pareceres -, botou
a viola no saco e foi para casa cuidar dos 9 filhos, sua criação de canários e
colocar seu barquinho no mar. A pesca era uma verdadeira paixão.
Apenas retornou à
Câmara Municipal a convite do Presidente Carlos Acelino, na sessão alusiva aos
63 anos daquele Poder, em 30.04.99.
Tinha saudade dos
grandes amigos que capitalizou na vida pública; Homero de Miranda Gomes,
Silvestre Philippi, Mário Pires, Gentil Sandin, Miguel Souza, companheiro de
caçadas, Arthur Mariano, Ireno Joaquim da Silva, Norberto Teodoro de Melo,
Francisco Goedert, Pedro José Coelho, Antônio Schroeder, Albertina Krummel
Maciel e tantos outros. Passava os domingos no rancho de Alcebíades Moreira, na
Ponta de Baixo em companhia do grande amigo Orlando Koerich e do próprio
Alcebíades.
Mostrou-me com
satisfação, o título da cidadania josefense, que lhe foi concedido em 1976 por
Geci Thives, então Presidente da Câmara e Arnaldo Mainchein de Souza, Prefeito.
Descemos ao rancho da
praia, passando pela fantástica criação de canários, uma cachaça, e, nas
paredes, o testemunho de sua grande paixão pelo futebol: dezenas de fotos do
Botafogo de Colônia Santana, time do qual ele era dono, das camisas, da bola,
do campo. Como disse sorridente: "era eu e mais dez". E intercaladas,
inúmeras fotos de grandes pescarias realizadas.
Nascido na Ilha, à Rua Bocaiúva, em 13.09.23,
embora registrado em 04.02.24, filho do comerciante Romão Júlio Borges,
falecido em 1949 e de Maria José Borges, ambos da Trindade, com a construção do
Hospital Colônia Santana, mudou-se para São José, onde foi trabalhar como
escriturário. Seus 7 irmãos seguiram destinos diversos.
O cunhado, Ari Mafra,
Diretor da Secretaria de Justiça do Estado indicou-o para o hospital. Casou-se
com Zenir Kretzer, daquela localidade, onde residiu por muito tempo e criou
seus 9 filhos. Iniciou na política aos 20 anos, em 1944. Jovem deslumbrado e
querendo ser notado, pediu certa vez a Arnoldo Souza para abrir um comício da
UDN no Teatro Adolpho Melo, presentes grandes oradores como Ivo de Aquino, e
Othon Gama D'Eça. Preparou mentalmente seu discurso no caminho e, ao chegar,
foi barrado na porta. Arnoldo Souza abriu o comício.
Trabalhou por muito
tempo na empresa Koerich, seu vínculo empregatício. Quando ainda residia na
Colônia Santana, adquiriu o terreno na Rua Assis Brasil, 207, na Ponta de Baixo,
de Dante Filomeno, pagando-o em prestações mensais e juros de 3 % ao mês. Com a
parte da venda de uma casa da família, na Rua Santos Saraiva, onde situava-se o
Hotel Bruggemann, começou a construir a casa na Ponta de Baixo.
Na época do governo
Jorge Lacerda, o Diretor do Hospital Colônia Santana, Miguel Ferreira, oficial
da Marinha, começou a perseguir o pessedista Walter Borges. Com o apoio de
Homero de Miranda Gomes, amigo pessoal de Jorge Bornhausen, foi segurando as
barras até fazer uma ponte de safena. Juntou os 28 anos de função no Estado e,
utilizando a lei de reciprocidade, aposentou-se por invalidez.
Municipalista, em
1958, acertou as bases, com Arno Sell, de Rancho Queimado, para a emancipação
do município. Na quarta legislatura, a UDN tinha 4 votos na Câmara, contra 5 do
PSD. Com o seu voto e o de Jorge Destri comprometeu-se na divisão.
No episódio de
emancipação de Angelina, em 1961, foi censurado por carta, do secretário do
PSD, Dr. Walberto Schmidt, hoje desembargador, genro do ex-vereador Mário
Vieira da Rosa. Gentil Sandin, presidente do partido também assinou a carta,
censurando-o por fomentar o movimento de emancipação, sem consultar as bases do
partido; taxando-o de "líder destacado", em função do episódio. Ele
era o líder do PSD na Câmara Municipal.
Com orgulho me forneceu
cópia de seu Parecer em Recurso, datado de 23.02.60, no qual defende com toda
sabedoria e embasamento legal que lhe são próprios, a gratificação negada ao
Prefeito Homero Gomes, que foi aprovado por 5 a 2 em sessão de 23.08.60.
Walter Borges foi um
patrimônio vivo do legislativo josefense. Deixou 9 filhos: Renê, com 2 filhos,
Cléia, com 3 filhos e 1 filha, Luiz Alberto, 2 filhos, Albi, 2 filhos, Walter
Júnior, 1 filha, Ângela Maria, 1 filho e 1 filha, Berenice, 2 filhos, Zenir 1
casal de filhos, Antônio Carlos, o Pachequinho, falecido, 2 filhos e 1 filha.
Não tem bisnetos. Em 2005 nosso vereador adoeceu, vindo a falecer no Hospital
Celso Ramos.
Saí dali satisfeito,
por haver conhecido um grande homem. Um homem que fez história. Um legítimo
cidadão josefense.
Walter Borges foi eleito em 1947, 1950, 1954, 1958,
1962 e 1966. A Avenida Vereador Walter Borges fica em Campinas. Sua denominação
foi referendada pela Lei 562, de 28.12.1965, em vida.
WALTER BORGES e
filhos: Renê, Cléia, Luiz, Alberto, Albi, Walter Filho, Ângela Maria, Berenice
e Zenir
Vereador WALTER BORGES
– seis legislaturas
Vereador WALTER BORGES
– seis legislaturas



Gostaria de parabenizar e agradecer a Carlos Acelino pela bela homenagem a meu avô. Confesso não ter conhecimento até hoje de sua digna trajetória.
ResponderExcluirMarcelo Espindola
Que belas memórias! Com certeza nosso avô era um grande homem! Alem de político, marido, pai, avô, amigo...dentre outras funções que, por sinal, exercia de forma sublime! Obrigado Sr. Carlos Acelino por compartilhar essas memórias que nos fazem relembrar com carinho e saudades do "vô Walter"!
ResponderExcluirApenas gostaria de acrescentar que Walter Borges já possui 11 lindos bisnetos!
Abs.
Alvaro Luz Neto