Pé De Valsa
O
caminhoneiro Miguel era muito assediado. Nos bailes de Angelina, todas as moças
queriam com ele dançar. Quando entrou pela primeira vez na cidade, ao levar
madeira de Urubici para Santo Amaro, mostrou sua beleza singular e seus dotes
de exímio dançarino na festa da igreja. Sendo a estrela do salão, também chamou
a atenção da linda Adelaide, filha do homem mais rico e poderoso daquelas paragens.
Nascia ali uma história de amor que lutou contra preconceitos e discriminação.
Afinal era o belo e pobre caminhoneiro querendo azarar a filha do grande
cacique político, cujo casamento só se consumou após sua morte, ocorrida em 6
de agosto de 1942. O pai de Adelaide, Nicolau Antonio Kretzer era homem de
prestígio e grande proprietário. Natural de São Pedro de Alcântara, residia na
praça central de Angelina, ao lado da Igreja. Foi Juiz de Paz da cidade,
Intendente Distrital, Conselheiro Municipal, Superintendente Municipal e Prefeito
de São José. Casado por duas vezes; do primeiro casamento nasceu Maria Paulina,
que casou com o Vereador Amando Schmitz e os filhos Bertoldo e Quirino Nicolau. As segundas núpcias foram com a filha de
Pedro Bunn, Dona Maria, resultando mais 9 filhos; dos quais Adelaide, o amor de
Miguel Souza, e Angélica, que casou com o Prefeito Silvestre Phillipi. Sendo o
homem que dava as cartas, é lógico que não via com bons olhos o namoro da filha
Adelaide com Miguel e não viveu para assistir ao casamento, que aconteceu no
ano seguinte à sua morte, quando Miguel mudou-se para a casa da Praça e assumiu
também os cuidados da sogra, Dona Maria Bunn. Miguel Rodrigues de Souza nasceu em Tubarão em 29.09.1917 e, bem
pequeno, mudou-se com a família para a localidade de “Atrás da Serra”, Bom
Retiro. Seu pai que trabalhava com pedras e rebolos, mudou-se novamente com a
esposa e os quatro filhos, dois homens e duas mulheres, para Urubici, onde
Miguel concluiu o 4° ano primário. A mãe, Otília Cascaes, foi sua professora. Aos
20 anos conseguiu emprego de motorista de caminhão, no transporte de madeira.
Tantas andanças o levaram a Angelina, onde conheceu a futura esposa. Com o
falecimento de Nicolau, Miguel montou uma empresa beneficiadora de madeira
movida à água, nos fundos da casa e vendia esquadrias, móveis, carrocerias e
até urnas funerárias. A vocação política surgiu dos muitos favores que prestava
com seu jipe. Por residir no centro, e em função dos bons negócios que fazia,
Miguel tornou-se bastante conhecido em toda a região e era procurado
constantemente pelas pessoas, que necessitavam de seu veículo nos casos de
urgência. Embora seus negócios fossem lucrativos, não fez fortuna, ganhando o
suficiente para sempre manter a mesa farta para os 11 filhos e as muitas
pessoas que procuravam sua casa. Adorava receber convidados e assar churrasco. O
casamento ocorreu em 29 de maio de 1943 e o casal teve os filhos Enio, Jaime de
Souza, que foi promotor de justiça e Procurador Geral de Dario Berger em São
José e Florianópolis, Nicolau, Maria Celeste, casada com Ailton Laudelino de
Andrade, que foi Prefeito por 3 vezes no município de Angelina, Otilia
Terezinha, Luiz Carlos, José Emilio, Regina Lucia, Miguel, Lucélia e Zélia. Embora de pouca formação escolar
Miguel era rígido no controle dos boletins dos filhos e, para qualquer nota
baixa, não importasse a matéria, ordenava o estudo da tabuada. Cidadão de bom
astral, participativo, bom papo, herdou da esposa a religiosidade, freqüentando
a missa todos os domingos, Dona Adelaide tocava órgão na igreja e o marido era
o xodó das festas, sempre cobiçado pelas mulheres para uma “marca”. O cunhado
de Silvestre Phillipi elegeu-se vereador por São José em 1950 e retornou a
política em 1959, quando se engajou na luta para transformar Angelina em
município. Semanalmente vestia seu impecável terno branco e tomava o ônibus às seis
da manhã para o centro de São José, onde participava das sessões da Câmara,
retornando só às oito da noite. Como o pai “foi para baixo” a prole numerosa aproveitava
para bagunçar. Miguel Souza foi nomeado auxiliar da Coletoria Estadual em 1961,
nela permanecendo até sua aposentadoria. Exerceu em vida também as funções de
recenseador do IBGE e Presidente do Hospital Nossa Senhora, de Angelina. Na
primeira eleição de Angelina, 1963/1967 tornou-se vereador, novamente se
elegendo no período seguinte. Nas duas legislaturas foi Presidente da Câmara e
em 1968 foi eleito Prefeito, para um mandato de 6 anos. Em 30/07/1982, seguia
para casa dirigindo um trator que conseguiu em São José e queria exibir na
festa do colono no dia seguinte. Uma crise de labirintite o derrubou da
máquina, que tombou na estrada de Santa Filomena, matando-o instantaneamente. Em
menos de 2 anos, o filho José Emilio também faleceu de acidente na Avenida
Presidente Kennedy. Dona Adelaide, acumulando tantas tristezas, faleceu quando
retornava do cemitério, dezessete dias depois.
Casa
de MIGUEL RODRIGUES DE SOUZA – neste local nasceu Jaime de Souza
JAIME
DE SOUZA – filho do Vereador Miguel de Souza e Procurador Geral do Município e
de Florianópolis.


Uma historia bem contada e com certeza um documento de grande importância !
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