terça-feira, 6 de novembro de 2012

Memória Política

Carlos Acelino


A "cassação branca" de Borges


Recostado na cadeira em frente à baía da Ponta de Baixo, em sua belíssima residência, em 6 de janeiro de 2000, o botafoguense e figueirense Walter Borges, aos 76 anos, abre um vasto arquivo memorial, com o orgulho do cidadão honorário josefense que cumpriu com sabedoria e dignidade o seu dever. Com ar de estadista, reclama apenas de dois dissabores de sua ampla atividade política: não ter sido convidado para a festa dos 25 anos do município de Angelina, que ajudou a emancipar e que, de cujas ofensivas municipalistas foi até censurado pelo presidente do seu partido - o PSD, Gentil Sandin, em ofício que guarda até hoje; e o episódio de caça as bruxas, em 1967, que resultou em sua "cassação branca", quando uma comissão do 5 º Distrito Naval, ou SNI, (não sabe precisar), reunida no gabinete do então Prefeito Cândido Damásio, lhe inquiria e ameaçava cassar-lhe o mandato. Seu irmão, que era da Marinha, alertou-o de que ele deveria ir para casa, pois seus direitos políticos seriam cassados, a exemplo de nomes como Osmar Cunha, Osni Regis e Fernando Viegas, cidadãos ditos "subversivos".

Informações confidenciais do dossiê apontavam o independente vereador como proprietário de uma frota de caminhões e uma rede de churrascarias, fortuna pretensamente adquirida através da atividade política. Logo ele, vereador por 6 legislaturas, 1º Secretário da Câmara na segunda e, por três legislaturas Vice-Presidente, sem nunca haver sido remunerado. Foi até chamado no palácio pelo então governador Ivo Silveira, para explicar-se. Incomodado partiu do gabinete de Candinho diretamente para casa, não mais retornando à Câmara Municipal. Nem se recorda se o Presidente Jorge Destri registrou nos anais do Parlamento seu ato de protesto ou sequer tenha convocado o suplente, Manoel Camilo Madalena.
Entristecido - afinal foi um lutador incansável do legislativo josefense, membro atuante de quase todas as comissões parlamentares, elaborador de centenas de pareceres -, botou a viola no saco e foi para casa cuidar dos 9 filhos, sua criação de canários e colocar seu barquinho no mar. A pesca era uma verdadeira paixão.
 Apenas retornou à Câmara Municipal a convite do Presidente Carlos Acelino, na sessão alusiva aos 63 anos daquele Poder, em 30.04.99.
Tinha saudade dos grandes amigos que capitalizou na vida pública; Homero de Miranda Gomes, Silvestre Philippi, Mário Pires, Gentil Sandin, Miguel Souza, companheiro de caçadas, Arthur Mariano, Ireno Joaquim da Silva, Norberto Teodoro de Melo, Francisco Goedert, Pedro José Coelho, Antônio Schroeder, Albertina Krummel Maciel e tantos outros. Passava os domingos no rancho de Alcebíades Moreira, na Ponta de Baixo em companhia do grande amigo Orlando Koerich e do próprio Alcebíades.
Mostrou-me com satisfação, o título da cidadania josefense, que lhe foi concedido em 1976 por Geci Thives, então Presidente da Câmara e Arnaldo Mainchein de Souza, Prefeito.
Descemos ao rancho da praia, passando pela fantástica criação de canários, uma cachaça, e, nas paredes, o testemunho de sua grande paixão pelo futebol: dezenas de fotos do Botafogo de Colônia Santana, time do qual ele era dono, das camisas, da bola, do campo. Como disse sorridente: "era eu e mais dez". E intercaladas, inúmeras fotos de grandes pescarias realizadas.
     Nascido na Ilha, à Rua Bocaiúva, em 13.09.23, embora registrado em 04.02.24, filho do comerciante Romão Júlio Borges, falecido em 1949 e de Maria José Borges, ambos da Trindade, com a construção do Hospital Colônia Santana, mudou-se para São José, onde foi trabalhar como escriturário. Seus 7 irmãos seguiram destinos diversos.
O cunhado, Ari Mafra, Diretor da Secretaria de Justiça do Estado indicou-o para o hospital. Casou-se com Zenir Kretzer, daquela localidade, onde residiu por muito tempo e criou seus 9 filhos. Iniciou na política aos 20 anos, em 1944. Jovem deslumbrado e querendo ser notado, pediu certa vez a Arnoldo Souza para abrir um comício da UDN no Teatro Adolpho Melo, presentes grandes oradores como Ivo de Aquino, e Othon Gama D'Eça. Preparou mentalmente seu discurso no caminho e, ao chegar, foi barrado na porta. Arnoldo Souza abriu o comício.
Trabalhou por muito tempo na empresa Koerich, seu vínculo empregatício. Quando ainda residia na Colônia Santana, adquiriu o terreno na Rua Assis Brasil, 207, na Ponta de Baixo, de Dante Filomeno, pagando-o em prestações mensais e juros de 3 % ao mês. Com a parte da venda de uma casa da família, na Rua Santos Saraiva, onde situava-se o Hotel Bruggemann, começou a construir a casa na Ponta de Baixo.
Na época do governo Jorge Lacerda, o Diretor do Hospital Colônia Santana, Miguel Ferreira, oficial da Marinha, começou a perseguir o pessedista Walter Borges. Com o apoio de Homero de Miranda Gomes, amigo pessoal de Jorge Bornhausen, foi segurando as barras até fazer uma ponte de safena. Juntou os 28 anos de função no Estado e, utilizando a lei de reciprocidade, aposentou-se por invalidez.
Municipalista, em 1958, acertou as bases, com Arno Sell, de Rancho Queimado, para a emancipação do município. Na quarta legislatura, a UDN tinha 4 votos na Câmara, contra 5 do PSD. Com o seu voto e o de Jorge Destri comprometeu-se na divisão.
No episódio de emancipação de Angelina, em 1961, foi censurado por carta, do secretário do PSD, Dr. Walberto Schmidt, hoje desembargador, genro do ex-vereador Mário Vieira da Rosa. Gentil Sandin, presidente do partido também assinou a carta, censurando-o por fomentar o movimento de emancipação, sem consultar as bases do partido; taxando-o de "líder destacado", em função do episódio. Ele era o líder do PSD na Câmara Municipal.
Com orgulho me forneceu cópia de seu Parecer em Recurso, datado de 23.02.60, no qual defende com toda sabedoria e embasamento legal que lhe são próprios, a gratificação negada ao Prefeito Homero Gomes, que foi aprovado por 5 a 2 em sessão de 23.08.60.
Walter Borges foi um patrimônio vivo do legislativo josefense. Deixou 9 filhos: Renê, com 2 filhos, Cléia, com 3 filhos e 1 filha, Luiz Alberto, 2 filhos, Albi, 2 filhos, Walter Júnior, 1 filha, Ângela Maria, 1 filho e 1 filha, Berenice, 2 filhos, Zenir 1 casal de filhos, Antônio Carlos, o Pachequinho, falecido, 2 filhos e 1 filha. Não tem bisnetos. Em 2005 nosso vereador adoeceu, vindo a falecer no Hospital Celso Ramos.
Saí dali satisfeito, por haver conhecido um grande homem. Um homem que fez história. Um legítimo cidadão josefense.
Walter Borges foi eleito em 1947, 1950, 1954, 1958, 1962 e 1966. A Avenida Vereador Walter Borges fica em Campinas. Sua denominação foi referendada pela Lei 562, de 28.12.1965, em vida.




WALTER BORGES e filhos: Renê, Cléia, Luiz, Alberto, Albi, Walter Filho, Ângela Maria, Berenice e Zenir




Vereador WALTER BORGES – seis legislaturas




Vereador WALTER BORGES – seis legislaturas


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Memória Política

Carlos Acelino


Cérebro Eletrônico


        Para um homem que cursara apenas o 4° ano do primário, Mário Coelho Pires era uma revelação. Autodidata, dominava qualquer área de conhecimentos gerais, história e geografia. Na matemática era um gênio. Em frações de segundos, contava e acertava o total de grandes quantidades, amontoadas ou dispersas. Tinha uma memória prodigiosa, raciocínio rápido e imediato. Sua habilidade com números causava espanto. O cientista Amaro Seixas Neto, seu amigo de todos os sábados, certa vez indagou-lhe: - quantos pisos tem a calçada em que pisamos?. Ele se colocou de pé na primeira peça e deu a soma exata, de pronto. Sua capacidade de leitura dinâmica e de memorizar tudo o que lia era objeto de admiração. Dominava o dicionário e escrevia em poesia e prosa. Fumante inveterado, dedicou toda uma vida à leitura e ao conhecimento. Homem simples, nascido em Florianópolis, era o 17° dos vinte filhos do Coronel Frontino Coelho Pires, chefe da Guarda Imperial de Desterro e futuro Coletor Estadual de São José. A mãe natural de Catuíra, Alfredo Wagner era filha de rico fazendeiro de Lages e matriarca de personalidade forte que imprimiu aos filhos rígida formação. Mário nasceu no inicio do século XX (17/07/1902) em Florianópolis  e, quando menino foi morar com a família em Imaruí de Laguna. Mais tarde, seu pai mudou-se para São José. Pela facilidade de efetuar somas, tornou-se guarda-livros (contador) dos armazéns e lojas da região, atividade que só pagava a subsistência  da família. Só conseguiu construir uma casa na rua Dr. Homero, aos 60 anos. Sempre morou em casas alugadas, uma delas, a parte superior do solar dos Neves, onde fundou a UDN em 1946, com Wanderley Junior, Albertina Krummel, Paulino Pedro Hermes, Roque e Dante Filomeno e mais 59 companheiros. Casou-se com Erotides dos Santos, neta de Joaquim Maximiano dos Santos, Deputado Provincial (1886/1887) como suplente convocado;  Vereador (1869 – 1873),  Juiz de Paz e 1° suplente de Juiz de Direito de São José. Católico não praticante, guardava os sábados, em respeito à sua esposa, que era adventista do 7° dia, freqüentadora da escola sabatina e dos cultos semanais. Ainda jovem, adorava pescar na Baía de Guararema, com Walter Borges e o Filho Mário. Do casamento com Erotides teve os descendentes Edio, Mário, Edia e Levy. O filho Edio casou com Maria Celina de Souza, filha do Vereador José Ferreira de Souza (1963/1967), e neta de Virgilino Ferreira de Souza, Vereador, Presidente da Câmara e Prefeito. Na primeira eleição após o Estado Novo (1947) Mário fez apenas 140 votos, e ficou na segunda suplência. A UDN elegeu apenas dois vereadores, Amando Schmitz e Sergio Carlino de Assunção. Nas legislaturas seguintes (eleição de 1950 e 1954) foi eleito, perdendo em 1958, mas assumiu na vaga de Antonio Benedito Kirchner, que renunciou. Em 1962 novamente foi eleito e se tornou Presidente da Câmara por 3 mandatos (1964 a 1967). Mário foi funcionário da prefeitura e sagrou-se  vereador pela primeira vez com 49 anos. No Governo Irineu Bornhausen, foi Diretor Administrativo do Hospital Colônia Santana. Na tribuna Pires era atuante, articulado e grande orador. Participava ativamente dos trabalhos da Câmara, pedia vistas, argumentava, contradizia,  era o “Battisti” de sua época. Foi um cidadão de bem, muito respeitado por seus pares e por toda a sociedade. Enfim, um homem humilde, culto e inteligente, que muito fez por São José, onde faleceu com 82 anos, no dia 18.02.1984.