sexta-feira, 17 de maio de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 


MÁQUINAS ELEITORAIS


Desde as calendas, a máquina pública sempre influiu nos resultados eleitorais. Um bom governo é máquina poderosa para eleger o seguinte. Governos medíocres provocam derrotas inesperadas e interrompem a continuidade. Na Velha República (1889/1930), pobre não votava, e nem concorria. As oligarquias dos grandes proprietários de terras, agricultores e pecuaristas poderosos ditavam as regras eleitorais e sempre elegiam seus representantes. Somente cidadãos com maior poder aquisitivo podiam votar e serem votados. Na Presidência da República, a “política do café com leite” revezou por 40 anos, políticos, em sua maioria de São Paulo e Minas Gerais, um dos pretextos para Getulio Vargas se insurgir contra as elites dominantes e chegar ao Palácio do Catete, onde permaneceu por 24 anos. Com o advento da Nova República (Revolução de 1930), o voto também foi estendido às mulheres e todo cidadão passou a ter o direito de concorrer, exceção aos analfabetos. Entre 1936 e 2012 foram realizadas 18 eleições para vereador. Na maioria delas o sucesso de grupos políticos nas urnas deu-se pelo desempenho de máquinas administrativas e da atuação dos governantes. Na maioria dos casos eles elegeram os sucessores para Prefeito e os vereadores mais votados. Qualquer cidadão investido como Secretário Municipal ganha maior projeção em candidatura, não só pelo tamanho, abrangência, e a gama de serviços da Pasta, como pelo desempenho do titular. José Natal Pereira venceu todas as 5 eleições para vereador com seu ótimo trabalho nas Secretarias de Barreiros e Obras. A vereadora Meri Heng teve votação gigante em 2008 (3.954 votos, marca ainda não superada) por seu trabalho abnegado e reconhecido na Secretaria de Educação, a mesma que tornou Fernando Elias, vereador mais votado em 2000 e o credenciou para Prefeito em 2004. Adeliana Dal Pont pavimentou sua vida política de sucesso em 8 anos de ótimo desempenho na Pasta da Saúde. Foi a segunda vereadora mais votada em 2000, reelegeu-se em 2004, ficou em segundo para prefeita em 2008 e consagrou-se em 2012 com 61,19% das urnas. Em todas as campanhas o tema “Saúde” foi predominante, referência ao seu bom trabalho nos governos Gervásio Silva e Dário Berger. Nos 10 anos do bipartidarismo (1966 a 1976), a Arena mandava no país e sempre ocupou a maioria das cadeiras do Parlamento josefense. Em São José tudo começou na breve democracia de 1936-1937, quando a euforia liberal elegeu prefeito o interventor João Machado Pacheco Junior e o Partido Liberal Catarinense fez cinco das sete vagas da Câmara, com os dois vereadores mais votados, Joaquim Vaz e Francisco Goedert. Este último foi também o vereador mais votado em 1947 e 1950, feito só conquistado por Natal, também o mais votado por duas vezes, em 1992 e 2004. Em 1947, o prefeito Arnoldo Souza, do PSD, elegeu 7 dos 9 vereadores, todos eles os mais votados. Na eleição de 1950, o PSD de Arnoldo Souza elegeu o sucessor Silvestre Philippi e seis vereadores (os três primeiros mais votados) contra 3 da UDN. Gentil Sandin, o Presidente da Câmara que concluiu o governo do pessedista Silvestre, que renunciou, elegeu a maior bancada em 1954 (cinco a quatro) com, novamente os três vereadores mais votados. Homero de Miranda Gomes, UDN, elegeu cinco dos nove vereadores em 1958, sendo os dois primeiros mais votados e ainda fez seu sucessor João Adalgiso, na eleição majoritária de 1960. No pleito de 1962, os udenistas empataram com o PSD (quatro a quatro) e o PTB fez sua primeira vaga, com Manoel Camilo Madalena. O vereador mais bem votado foi Cândido Amaro Damásio, do partido governista, que Homero elegeu em 1965 seu sucessor. Na primeira eleição do bipartidarismo, o prefeito Candinho, na Arena, elegeu oito dos nove vereadores da Câmara, sendo todos eles os mais votados. Nessa disputa o MDB de São José elegeu seu primeiro vereador, Joaquim José Vieira. Na eleição seguinte, 1969, os mandatos passaram a coincidir e o Prefeito Candinho, elegeu Germano Vieira seu sucessor pela Arena que, concorrendo com dez candidatos, preencheu todas as nove vagas do Parlamento. Germano governou com maioria absoluta e em 1962 fez o sucessor, Arnaldo Mainchein de Souza, o “Neco”. Novamente a Arena de Germano carimbou todas as onze vagas de vereador. Quatro anos mais tarde, 1966, Neco fez sucessor Geci Thives e a Arena elegeu nove dos treze vereadores. Iniciava-se a carreira política mais duradoura de nossa historia. Orvino concorreu pela primeira vez, e foi o segundo vereador mais votado do MDB. Já entrou com o pé direito, pois a legislação eleitoral, esticou seu primeiro mandato para seis anos. Na eleição de 1982, Constâncio Krummel Maciel, que sucedeu Geci Thives em mandato tampão, elegeu seu sucessor Germano Vieira, pela segunda vez e o PDS, antiga Arena fez uma bancada de nove vereadores, contra oito do, agora, PMDB. Germano migrou para o PFL e em 1988 elegeu prefeito seu sobrinho Diocéles. Os votos brancos e nulos foram maiores que os conferidos ao prefeito eleito: 15.793 a 13.321. O desgaste de sua segunda gestão resultou em minoria no Parlamento, sete das dezenove vagas. Mesmo assim o PFL fez a maior bancada. As demais vagas ficaram com PDS/PDC, cinco; PMDB, quatro; PDT, dois e PSC, um. Nessa eleição o PT iniciava sua história em São José, concorrendo com apenas sete candidatos, que somaram, ao todo, 125 votos. Rosangela de Souza, a mais votada da sigla, fez 45 sufrágios. Na eleição de 1992, o pefelista Diocéles, elegeu o tio Germano pela terceira vez, num resultado altamente suspeito e o partido fez oito dos vinte e um vereadores, sendo do mesmo os seis primeiros mais votados. Entretanto, a maioria parlamentar oposiosonista afastou o prefeito dois anos depois. Gervásio Silva, vice-prefeito e sucessor de Germano, realizou um governo empreendedor e emplacou Dário Berger em 1996, numa campanha iniciada com 3% de apoio popular e a coligação PFL/PMDB elegeu dez dos vinte e um vereadores, todos com expressiva votação, sendo Adi Xavier o primeiro. Dário fez um dos maiores dos governos josefenses e em 2000 conquistou 84,72% dos votos apurados. Sua ampla coligação conquistou quinze das vinte e uma vagas de vereadores, sendo Fernando Elias, Secretário de Educação o mais votado. Adeliana, da Saúde, foi a segunda colocada. Dário e seu grupo político deixaram o PFL e fortaleceram o PSDB, que elegeu o sucessor Fernando Elias em 2004, numa coligação (PSDB, PMDB e PTB) que fez sete dos doze vereadores. No mesmo ano, transferiu o domicilio eleitoral para a Capital, elegeu-se Prefeito e governou Floripa por oito anos. Durante 76 anos, a máquina pública josefense só fracassou em campanhas por quatro momentos: na eleição de 1955 o pessedista Gentil Sandin, não elegeu Antonio Machado, o “Machadinho”, seu sucessor, pela força de Homero de Miranda Gomes, médico respeitado que concorreu na UDN do governador Irineu Bornhausen. O PSD entretanto elegeu 5 dos nove vereadores, três deles os mais votados. Em 2004 o prefeito Vanildo Macedo, PSDB, virou a casaca 15 dias antes da eleição em favor de Gervásio Silva, PFL, atitude que sacramentou a derrota de Gegê para Fernando Elias. A coligação vencedora para prefeito emplacou sete dos doze vereadores. Na eleição seguinte, a administração turbulenta de Fernando Elias, barrou sua reeleição, lhe reservando um 4 lugar na disputa, elegendo apenas três dos treze vereadores. Djalma Berger tornou-se prefeito pelo PSB com apenas um vereador (Sanderson de Jesus), mais dois do PR. Fez várias alianças equivocadas para governar e perdeu em 2012 para Adeliana Dal Pont, apesar de sua coligação ter conquistado dez das treze cadeiras da Câmara. Seis delas só de seu partido, o PMDB.



Gervásio Silva, PFL, quarto Deputado Federal mais votado em 1998 (79.791 votos, sendo 30.134 só de São José). Reelegeu-se em 2002 (113.137 votos, dos quais 22.548 de São José). Em 2004, a máquina pública o derrotou para prefeito, pelo apoio oportunista de última hora do titular Vanildo Macedo, do PSDB

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 



Curriqueira
                 “Memória Viva da Cidade”


Elenita quer dizer “pequena Helena”. Conheci poucas Helenas e delas tenho grandes lembranças: Helena de Tróia, pivô de uma guerra, Helena Meireles, a fantástica violeira do Pantanal, que só fez sucesso com mais de 70 anos, Helena Minin, a médica homeopata ucraniana que me livrou de uma depressão em 1982. A mais marcante delas é minha amiga Elenita, que foi registrada sem o “H”, consoante que a mãe Ondina, bordadeira de mão cheia, achava feia para os diagramas das toalhas e roupinhas que bordaria para a primeira filha.
A famosa parteira josefense Diba Gerber trouxe ao mundo nossa Helena, filha de pedessista Benjamin Gerlach, o seu Bejo, cuja casa no coração da praça central se encheu de alegria com sua chegada, em 19 de junho de 1950, ali no sobrado ao lado da Igreja, onde já foi sede da Câmara Municipal em 1999 e 2000, e hoje funciona a Fundação Municipal de Cultura que ela preside.
No vocabulário grego, Helena é palavra derivativa de “Helene”, tocha, luz, bem próprio para nossa memória viva de São José. Elenita é um ser iluminado. Bela, elegante, humana, bondosa, prestativa, articulada, inteligente, acessível, respeitada, política. Esbanja simpatia e hospitalidade, tem sempre as mãos estendidas para o afago e o acolhimento.
Viajada, conhece muitos lugares do Brasil, boa parte das três Américas, a Europa e a Índia.
Seu porto seguro, entretanto, é a imponente casa colonial azul ao alto da praça Hercílio Luz, onde se instalou em 1986 e até hoje vive em companhia do esposo, os filhos Guilherme e Sabrina, os netos Nicolas, Samuel, Marco Antônio e João Guilherme, a cuidadora Claudete, o cachorro Max (homenagem ao amigo Max Hablitzel) e a cadela Gilda. Nesse espaço, a história da cidade predomina em cada peça, foto ou lembrança. Milhares de recordações de outrora, desde os dois copos pintados, presentes das núpcias de Zulma Vaz (do Lar dos Velhinhos) até os cordões umbilicais dos filhos e netos, ressequidos e preservados dentro de livros.
Vez por outra passa os dias em Betânia, Angelina, recanto bucólico que pertenceu a São José, no passado conhecido por Perdidas. Lá Elenita colhe phisalis e outras frutas no pomar, interage com a comunidade luterana, sua religião de origem, ajuda a organizar os festejos de Natal e assiste Gunga, o amor de sua vida criando belíssimas obras de arte no torno de madeira.
Quando menina, Elenita corria as sete senhoras sapeando na vizinhança, comendo na casa dos outros. De uma vivacidade e simpatia contagiante, quando mocinha só queria roupas e paqueras. Muito sapeca, aprontava todas.
Dona Ondina dizia que o que não existia ela inventava. Fez o curso primário no Colégio Francisco Tolentino e concluiu o ginásio no Instituto Estadual de Educação. Nas passagens pela Ilha se encantou por Carlos Eugênio, que morava no Sertão do Maruim, trabalhava desde os 13 anos na empresa do avô. Eugênio Raulino Koerich e cursava o técnico em contabilidade no Sena Pereira. Uma combinação perfeita para matar aula, ir ao cinema, comprar bombinhas na Gruta de Fátima para soltar no pátio do colégio, rodar na 2ª série, namorar por 3 anos, noivar por mais 3 e casar na matriz de São José, em 11.07.1970. Sempre preocupado com a formação dos filhos, seu Bejo a matriculou no Colégio Coração de Jesus no curso normal e a perigosa continuava aprontando. Mentia para os padres, dizendo-se perseguida pelas freiras, por ser luterana e até tinta jogou na pia de água benta, querendo forçar sua expulsão do Colégio, sem sucesso. Já casada concluiu o Magistério em dezembro de 1970. Fez concurso público no Estado e foi lecionar em Águas Mornas, mais tarde sendo transferida como Auxiliar de Direção da Professora Marcilia de Oliveira no Francisco Tolentino onde estudou e passou a dar aulas. Lecionou também em Palhoça, na Praia Comprida, nos Colégios Deise Sales e Anibal Nunes Pires. Formou-se em Letras na UFSC, com especialização em inglês e espanhol e se elegeu Vereadora em São José. Foi Diretora da FCEE e Diretora de Artes da FCC. O gosto pela política, herdou do pai, cuja loja na Praça fechava as 23 horas e era frequentada pelas expressões políticas da época, os Prefeitos Arnoldo e Arnaldo Souza, e João Adalgísio Phillippi, os vereadores Mário Pires, Walter Borges e Jaime Destri e o amável Machadinho, primeiro Prefeito de Angelina, além de muitos caciques que vinham da Capital para um prosa
Agora, Elenita voltou ao berço natal. Queria instalar seu Gabinete no quarto onde nasceu, mas não resistiu aos encantos da Praça, onde trilhou por toda sua vida. Da janela contempla a paisagem enquanto trabalha.
Poucos tem esse privilégio de voltar tão intensamente às origens. No entorno,a Igreja, a Bica da Carioca, a Casa de Câmara e Cadeia, centro do poder político por 133 anos, o Teatro Adolfo Melo, que já sediou o Cine Rajá, onde assistiu ao primeiro filme com Gunga, aos 13 anos. Ainda guarda com carinho a ceninha do filme “A espada de um conquistador”, com Jack Palance, que ganhou de Osni Machado, o projetista do cinema.
A vida de Elenita daria um bom livro. Sua simpatia conquista de pronto as pessoas. Na Câmara Municipal fez sua parte e firmou amizades. Adorava Luiz Raupp, Zé da Padaria e Natal. Até hoje é curriqueira, não pára em casa e vive procurando atividade. Responsável e comprometida, foi escolhida para a missão de zelar por nossa cultura. Aceitou o desafio, sabedora das dificuldades. Se lhe derem caneta, certamente vai revitalizar a centenária Bica da Carioca e tentar restaurar alguns monumentos arquitetônicos da cidade ao relento. Ou talvez reeditar o “Caminho dos Tropeiros”, ao lado do cemitério, onde por muito tempo circulou o progresso da cidade, partindo da Ilha no lombo dos cavalos até Lages.
Sou suspeito para falar de Elenita, pois gosto dela e a recíproca é verdadeira. De uma coisa tenho plena certeza, ela tem amor inestimável por sua Terra e sua gente. Acima de tudo uma mulher josefense de quatro costados.