Curriqueira
“Memória
Viva da Cidade”
Elenita quer dizer “pequena
Helena”. Conheci poucas Helenas e delas tenho grandes lembranças: Helena de
Tróia, pivô de uma guerra, Helena Meireles, a fantástica violeira do Pantanal,
que só fez sucesso com mais de 70 anos, Helena Minin, a médica homeopata
ucraniana que me livrou de uma depressão em 1982. A mais marcante delas é minha
amiga Elenita, que foi registrada sem o “H”, consoante que a mãe Ondina,
bordadeira de mão cheia, achava feia para os diagramas das toalhas e roupinhas
que bordaria para a primeira filha.
A famosa parteira josefense
Diba Gerber trouxe ao mundo nossa Helena, filha de pedessista Benjamin Gerlach,
o seu Bejo, cuja casa no coração da praça central se encheu de alegria com sua
chegada, em 19 de junho de 1950, ali no sobrado ao lado da Igreja, onde já foi
sede da Câmara Municipal em 1999 e 2000, e hoje funciona a Fundação Municipal
de Cultura que ela preside.
No vocabulário grego, Helena
é palavra derivativa de “Helene”, tocha, luz, bem próprio para nossa memória
viva de São José. Elenita é um ser iluminado. Bela, elegante, humana, bondosa,
prestativa, articulada, inteligente, acessível, respeitada, política. Esbanja
simpatia e hospitalidade, tem sempre as mãos estendidas para o afago e o
acolhimento.
Viajada, conhece muitos
lugares do Brasil, boa parte das três Américas, a Europa e a Índia.
Seu porto seguro,
entretanto, é a imponente casa colonial azul ao alto da praça Hercílio Luz,
onde se instalou em 1986 e até hoje vive em companhia do esposo, os filhos Guilherme
e Sabrina, os netos Nicolas, Samuel, Marco Antônio e João Guilherme, a
cuidadora Claudete, o cachorro Max (homenagem ao amigo Max Hablitzel) e a
cadela Gilda. Nesse espaço, a história da cidade predomina em cada peça, foto
ou lembrança. Milhares de recordações de outrora, desde os dois copos pintados,
presentes das núpcias de Zulma Vaz (do Lar dos Velhinhos) até os cordões
umbilicais dos filhos e netos, ressequidos e preservados dentro de livros.
Vez por outra passa os dias
em Betânia, Angelina, recanto bucólico que pertenceu a São José, no passado
conhecido por Perdidas. Lá Elenita colhe phisalis e outras frutas no pomar,
interage com a comunidade luterana, sua religião de origem, ajuda a organizar
os festejos de Natal e assiste Gunga, o amor de sua vida criando belíssimas
obras de arte no torno de madeira.
Quando menina, Elenita
corria as sete senhoras sapeando na vizinhança, comendo na casa dos outros. De
uma vivacidade e simpatia contagiante, quando mocinha só queria roupas e
paqueras. Muito sapeca, aprontava todas.
Dona Ondina dizia que o que
não existia ela inventava. Fez o curso primário no Colégio Francisco Tolentino
e concluiu o ginásio no Instituto Estadual de Educação. Nas passagens pela Ilha
se encantou por Carlos Eugênio, que morava no Sertão do Maruim, trabalhava
desde os 13 anos na empresa do avô. Eugênio Raulino Koerich e cursava o técnico
em contabilidade no Sena Pereira. Uma combinação perfeita para matar aula, ir ao
cinema, comprar bombinhas na Gruta de Fátima para soltar no pátio do colégio, rodar
na 2ª série, namorar por 3 anos, noivar por mais 3 e casar na matriz de São
José, em 11.07.1970. Sempre preocupado com a formação dos filhos, seu Bejo a matriculou
no Colégio Coração de Jesus no curso normal e a perigosa continuava aprontando.
Mentia para os padres, dizendo-se perseguida pelas freiras, por ser luterana e
até tinta jogou na pia de água benta, querendo forçar sua expulsão do Colégio,
sem sucesso. Já casada concluiu o Magistério em dezembro de 1970. Fez concurso
público no Estado e foi lecionar em Águas Mornas, mais tarde sendo transferida
como Auxiliar de Direção da Professora Marcilia de Oliveira no Francisco
Tolentino onde estudou e passou a dar aulas. Lecionou também em Palhoça, na Praia
Comprida, nos Colégios Deise Sales e Anibal Nunes Pires. Formou-se em Letras na
UFSC, com especialização em inglês e espanhol e se elegeu Vereadora em São José.
Foi Diretora da FCEE e Diretora de Artes da FCC. O gosto pela política, herdou
do pai, cuja loja na Praça fechava as 23 horas e era frequentada pelas
expressões políticas da época, os Prefeitos Arnoldo e Arnaldo Souza, e João
Adalgísio Phillippi, os vereadores Mário Pires, Walter Borges e Jaime Destri e
o amável Machadinho, primeiro Prefeito de Angelina, além de muitos caciques que
vinham da Capital para um prosa
Agora, Elenita voltou ao
berço natal. Queria instalar seu Gabinete no quarto onde nasceu, mas não resistiu
aos encantos da Praça, onde trilhou por toda sua vida. Da janela contempla a
paisagem enquanto trabalha.
Poucos tem esse privilégio
de voltar tão intensamente às origens. No entorno,a Igreja, a Bica da Carioca,
a Casa de Câmara e Cadeia, centro do poder político por 133 anos, o Teatro
Adolfo Melo, que já sediou o Cine Rajá, onde assistiu ao primeiro filme com
Gunga, aos 13 anos. Ainda guarda com carinho a ceninha do filme “A espada de um
conquistador”, com Jack Palance, que ganhou de Osni Machado, o projetista do
cinema.
A vida de Elenita daria um
bom livro. Sua simpatia conquista de pronto as pessoas. Na Câmara Municipal fez
sua parte e firmou amizades. Adorava Luiz Raupp, Zé da Padaria e Natal. Até
hoje é curriqueira, não pára em casa e vive procurando atividade. Responsável e
comprometida, foi escolhida para a missão de zelar por nossa cultura. Aceitou o
desafio, sabedora das dificuldades. Se lhe derem caneta, certamente vai
revitalizar a centenária Bica da Carioca e tentar restaurar alguns monumentos
arquitetônicos da cidade ao relento. Ou talvez reeditar o “Caminho dos
Tropeiros”, ao lado do cemitério, onde por muito tempo circulou o progresso da
cidade, partindo da Ilha no lombo dos cavalos até Lages.
Sou suspeito para falar de Elenita, pois gosto
dela e a recíproca é verdadeira. De uma coisa tenho plena certeza, ela tem amor
inestimável por sua Terra e sua gente. Acima de tudo uma mulher josefense de
quatro costados.
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