segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Memória Política

Carlos Acelino 

Carta De Renúncia

São Paulo, 13 de dezembro de 1954.


          Ilmo Snr. Presidente da Câmara Municipal de São José, movido por dolorosas circunstâncias, resolvo, nesta data, renunciar o cargo de Prefeito Municipal deste Município. Interrompo o meu mandato como pobre chefe de família, em consequência de uma demasiada dedicação ao cargo o que, muito bem atesta o fato de ter autorizado à minha esposa a vender todos os meus bens a fim de pagar dívidas que em grande parte cabiam à Prefeitura. Ordens de pagamento, recibos e notas que se acham no guarda roupa do hotel em que me hospedava o confirmam. E dou permissão de os recolherem para verificação. Quantos pagamentos e juros de dinheiro que tomava por empréstimo teria que reembolsar si a Prefeitura estivesse em condições de pagar.
Jornais publicavam e até certas pessoas com alguma autoridade comentavam o pagamento neste ano de um milhão de cruzeiros da cota parte do imposto de renda. E não menti à Câmara quando lhe solicitei a aprovação de lei de emissão de apólices, declarando que mesmo fosse de vulto a importância da cota teríamos que emitir apólices para prosseguir as obras. A Câmara aprovou e eu sancionei, mas até a presente data, embora grande esperança me fosse dado, nenhuma conseguimos colocar. Depois de dois anos e meio havíamos cortado paralelepípedos que davam para iniciar a pavimentação da rua principal, iniciamos a reforma do cinema que oferecia sérios perigos pelo seu péssimo estado de conservação, o mau tempo da chuva contínua, o que durou de agosto do ano passado a outubro deste. Muito gastamos e mandava que trabalhássemos os que, através dos Intendentes, vinham reclamar o mau estado das estradas e pontes, pois muito doloroso seria deixar os produtos agrícolas apodrecer nas respectivas zonas.
Em mês de fevereiro deste ano, no auge do desespero, recorro ao então Presidente da República Dr. Getúlio Vargas, implorando à S. Excia um auxílio. Obtive resposta imediata que havia sido encaminhado ao Ministério de Viação e Obras Públicas o pedido que lhe fiséra. Depois encaminhado ao Dasp e hoje se acha na Divisão de Orçamento sob o número 8006. Indescritível tem sido a minha preocupação, pois sempre procurei imprimir lisura de caráter à minha pessoa. Renuncio daqui, não por questão de consciência, mas tão somente porque dado os constantes abalos psíquicos, temi não resistir os dissabores que iria presenciar nos meus servidores municipais que jamais esperavam um Natal tão precário e as dores morais de minha companheira de todas as horas, minha pobre esposa, ao contar-lhe o mais tétrico drama de minha vida. Noites mal dormidas e centenas de sofrimentos outros, Deus os há de registrar nas folhas de minha conduta para desconto de meus pecados.  Esse meu caro Presidente é o corolário de um cargo que tanto consumiu as minhas emergias. Não foram poucas as soluções que procurei dar aos nossos delicados problemas, entretanto, neste afam, maiores eram os aluviões que surgiam, aumentando os meus travores.
E ainda eram tantas as reclamações que surgiam, pelo que me parecia perder o controle de mim próprio.
O pouco que conseguia realizar, não era com o feito de reunir bagagem eleitoral, pois que, desde muito era possuído de ojeriza a cargo eletivo.
O recurso é me conformar com a sorte e em troca deste patíbulo moral, peço ao Pai Onipotente difundir as suas bênçãos a terra josefense.
Que sobre o município orvalhado de meus suores e lágrimas sejam flores para deleitar o espírito de seus habitantes. No guarda documentos do gabinete do Prefeito encontra-se as apólices cotadas e assinadas. Ao sair da Prefeitura, o Snr. Tesoureiro me prestou contas e por esquecimento deixei de assinar as ordens de pagamento que não são poucas. E ao encerrar a presente despeço-me do nobre ilustre Presidente, pedindo que em meu nome apresente a minha mensagem de um feliz Natal a todos os Snrs. Vereadores e ao povo josefense. Que Deus se digne derramar bênçãos abundantes sobre a terra que, pela  primeira vez na sua história, um Prefeito que tudo deu por ela não teve o conforto moral de um descanso pacífico no fim de seu mandato.
Oh! Mundo quantas dores e sofrimentos encerram em ti! Porque de ti não me vieram outros sacrifícios de ordem corporal por mais drásticos que fossem? Sim, eu sei porque: sabias que qualquer um que fosse, encontrarias resistência com menos luta e me querias ver lutar, pensando que me levaria ao suicídio.
Te iludiste, isso nunca! Tenho as armas poderosas de Deus: a fé e a esperança. Oh! Pai! Que a outra Pátria não seja esse exílio e esse vale de lágrimas! E quando alguém estiver sofrendo por minha causa, si algum merecimento tenho perante vós, o ajudai e auxiliai, dando-me outros sacrifícios então, para depurar a minha alma.
Confio-vos oh! Pai Onipotente! O meu bom povo, o povo josefense!
Cuidai deles, Virgem Aparecida, Padroeira do Brasil!
Do seu mais humilde dos amigos, um grande abraço que jamais faça quebrar a amizade de sempre.
Silvestre Fernando Philippi.

Carta lida na sessão da Câmara Municipal de São José de 28 de dezembro de 1954.
Na mesma sessão foi eleito Prefeito o Presidente da Casa Gentil Sandin, para cumprir o restante do mandato do renunciante, até 31.01.56.

Os udenistas Mário Pires, Clemente Schappo e Amando Schmitz não compareceram à sessão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário