Carta De Renúncia
São Paulo, 13 de
dezembro de 1954.
Ilmo Snr. Presidente da Câmara
Municipal de São José, movido por dolorosas circunstâncias, resolvo, nesta
data, renunciar o cargo de Prefeito Municipal deste Município. Interrompo o meu
mandato como pobre chefe de família, em consequência de uma demasiada dedicação
ao cargo o que, muito bem atesta o fato de ter autorizado à minha esposa a
vender todos os meus bens a fim de pagar dívidas que em grande parte cabiam à
Prefeitura. Ordens de pagamento, recibos e notas que se acham no guarda roupa
do hotel em que me hospedava o confirmam. E dou permissão de os recolherem para
verificação. Quantos pagamentos e juros de dinheiro que tomava por empréstimo teria
que reembolsar si a Prefeitura estivesse em condições de pagar.
Jornais publicavam e
até certas pessoas com alguma autoridade comentavam o pagamento neste ano de um
milhão de cruzeiros da cota parte do imposto de renda. E não menti à Câmara
quando lhe solicitei a aprovação de lei de emissão de apólices, declarando que
mesmo fosse de vulto a importância da cota teríamos que emitir apólices para
prosseguir as obras. A Câmara aprovou e eu sancionei, mas até a presente data,
embora grande esperança me fosse dado, nenhuma conseguimos colocar. Depois de
dois anos e meio havíamos cortado paralelepípedos que davam para iniciar a
pavimentação da rua principal, iniciamos a reforma do cinema que oferecia
sérios perigos pelo seu péssimo estado de conservação, o mau tempo da chuva
contínua, o que durou de agosto do ano passado a outubro deste. Muito gastamos
e mandava que trabalhássemos os que, através dos Intendentes, vinham reclamar o
mau estado das estradas e pontes, pois muito doloroso seria deixar os produtos
agrícolas apodrecer nas respectivas zonas.
Em mês de fevereiro deste
ano, no auge do desespero, recorro ao então Presidente da República Dr. Getúlio
Vargas, implorando à S. Excia um auxílio. Obtive resposta imediata que havia
sido encaminhado ao Ministério de Viação e Obras Públicas o pedido que lhe fiséra.
Depois encaminhado ao Dasp e hoje se acha na Divisão de Orçamento sob o número
8006. Indescritível tem sido a minha preocupação, pois sempre procurei imprimir
lisura de caráter à minha pessoa. Renuncio daqui, não por questão de
consciência, mas tão somente porque dado os constantes abalos psíquicos, temi
não resistir os dissabores que iria presenciar nos meus servidores municipais
que jamais esperavam um Natal tão precário e as dores morais de minha
companheira de todas as horas, minha pobre esposa, ao contar-lhe o mais tétrico
drama de minha vida. Noites mal dormidas e centenas de sofrimentos outros, Deus
os há de registrar nas folhas de minha conduta para desconto de meus
pecados. Esse meu caro Presidente é o
corolário de um cargo que tanto consumiu as minhas emergias. Não foram poucas
as soluções que procurei dar aos nossos delicados problemas, entretanto, neste afam,
maiores eram os aluviões que surgiam, aumentando os meus travores.
E ainda eram tantas as
reclamações que surgiam, pelo que me parecia perder o controle de mim próprio.
O pouco que conseguia
realizar, não era com o feito de reunir bagagem eleitoral, pois que, desde
muito era possuído de ojeriza a cargo eletivo.
O recurso é me
conformar com a sorte e em troca deste patíbulo moral, peço ao Pai Onipotente
difundir as suas bênçãos a terra josefense.
Que sobre o município
orvalhado de meus suores e lágrimas sejam flores para deleitar o espírito de
seus habitantes. No guarda documentos do gabinete do Prefeito encontra-se as
apólices cotadas e assinadas. Ao sair da Prefeitura, o Snr. Tesoureiro me
prestou contas e por esquecimento deixei de assinar as ordens de pagamento que
não são poucas. E ao encerrar a presente despeço-me do nobre ilustre
Presidente, pedindo que em meu nome apresente a minha mensagem de um feliz
Natal a todos os Snrs. Vereadores e ao povo josefense. Que Deus se digne
derramar bênçãos abundantes sobre a terra que, pela primeira vez na sua história, um Prefeito que
tudo deu por ela não teve o conforto moral de um descanso pacífico no fim de
seu mandato.
Oh! Mundo quantas
dores e sofrimentos encerram em ti! Porque de ti não me vieram outros
sacrifícios de ordem corporal por mais drásticos que fossem? Sim, eu sei
porque: sabias que qualquer um que fosse, encontrarias resistência com menos
luta e me querias ver lutar, pensando que me levaria ao suicídio.
Te iludiste, isso
nunca! Tenho as armas poderosas de Deus: a fé e a esperança. Oh! Pai! Que a
outra Pátria não seja esse exílio e esse vale de lágrimas! E quando alguém estiver
sofrendo por minha causa, si algum merecimento tenho perante vós, o ajudai e
auxiliai, dando-me outros sacrifícios então, para depurar a minha alma.
Confio-vos oh! Pai
Onipotente! O meu bom povo, o povo josefense!
Cuidai deles, Virgem
Aparecida, Padroeira do Brasil!
Do seu mais humilde
dos amigos, um grande abraço que jamais faça quebrar a amizade de sempre.
Silvestre Fernando Philippi.
Carta lida na sessão da
Câmara Municipal de São José de 28 de dezembro de 1954.
Na mesma sessão foi
eleito Prefeito o Presidente da Casa Gentil Sandin, para cumprir o restante do
mandato do renunciante, até 31.01.56.
Os udenistas Mário
Pires, Clemente Schappo e Amando Schmitz não compareceram à sessão.
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