Águas de Março:
Impeachment
e Emancipação
E lá se foram 19 anos as águas de março de
1994, ao assolarem Barreiros e Forquilhinha, trouxeram o prenúncio da cassação.
Traziam a memória de outras águas, as do Rio Araújo, onde, dizem, foram parar
as três urnas de Barreiros, que tiraram a vitória de Marli Marçal na eleição de
1992, por 285 votos. Conta-se que após a apuração cédulas eleitorais originais
foram espalhadas em frente à Prefeitura, numa provocação sem igual aos que
perderam. O primeiro torpedo foi disparado por Lauro Guesser, que fez 14.043
votos com seu vice, Pedro Gazaniga. Na tribuna ele desabafou: “–Foi a maior extorsão eleitoral de nossa
história. Os métodos utilizados deram um resultado altamente suspeito
(08/10/1992). Além disso, nunca se distribuiu tanto barro, madeira e tijolo
como nessa eleição.”
Os rios Três Henriques e Maruim fizeram os estragos
conhecidos em Barreiros e nas bacias do Flor de Nápolis, Los Angeles e Sertão,
desanimando também o povo de São Pedro de Alcântara, que ansiava pela
independência. Para tanto contaram com as vozes de Ernei Stahelin e Salézio
Zimmermann, que dessa vez não viveram a frustração do distrito de Barreiros,
não emancipado por falta de quorum nas urnas. Em 13 de abril, o governo do
Estado assinou o Decreto de emancipação, diminuindo a área territorial de São
José em 55%. Mas o Estado também dava ao novo Município, um presente de grego:
o Presídio Regional, cujas tratativas já estavam bem adiantadas na época.
“As águas vão rolar.” O antigo refrão musical
ilustrava o desastre. O Prefeito que se orgulhava de ter muito dinheiro no
caixa, não visitou as áreas atingidas, nem recebeu uma Comissão de Vereadores
para minimizar os problemas. Tendo “vencido” a eleição com apenas 8 dos 21 vereadores,
subestimava todo o Parlamento e até seus próprios aliados, não atendia ninguém,
insuflado por puxa sacos e bajuladores sem voto, que ainda hostilizavam os eleitos.
Qualquer semelhança com nossa história recente não é mera coincidência. Nos
últimos 8 anos tivemos atitudes semelhantes, até com muitos “estrangeiros”
deitando e rolando sobre quem botou a cara prá bater nas urnas e tripudiando
sobre os servidores efetivos.
Os primeiros movimentos para apear o Prefeito
do trono iniciaram ao final do primeiro ano de governo. Bem não acabaram os
rumores da CPI que investigou irregularidades nas compras da Secretaria de
Educação, as águas voltaram a selar destinos. Novos caminhos da improbidade
surgiram com a descoberta do areal de propriedade do Prefeito, que forneceu 500
caçambadas para o Município. Num balanço do primeiro ano Fernando Elias abriu a
caixa de ferramentas, em 24 de novembro na tribuna: "-Este é um governo acéfalo, anômalo, arcaico, retrogrado, que não
sabe andar por si só”, disparou. “É um governo que só está interessado na
economia. Não tem dívidas, mas também não tem obras. Visa apenas o lucro das
operações financeiras e não o lucro social que o quarto município catarinense
merece. Se não tem obras, prá que tanta areia? Este cidadão tem que ser
interditado!”
O caldeirão começou a ferver.
Na Câmara, a maioria governista se esvaiu,
Ademar Koerich o líder do Governo tentava explicar o inexplicável, se virava
nos trinta com tantos pedidos de informações e rejeição de vetos e projetos, sendo
inclusive agredido fisicamente no gabinete do Prefeito, em frente às câmeras de
3 canais de TV. O Presidente Orvino, da bancada governista, administrava uma
saia justa para conter a rebeldia. A bancada do PMDB liderada por Protázio
Machado estava indócil, o PDS de Marli Marçal também, José Natal era Secretário
de Barreiros e seu suplente imediato Elson Coelho somava 6 aliados, incluindo
João do Ovo, único do PDT.
Três CPIs foram instaladas com ampla maioria.
Documentos e denúncias choveram. Uns provavam que os carnês de IPTU foram
feitos por compra direta e legalizados posteriormente com uma licitação fria. Outros
denunciavam o escândalo do areal e muitos documentavam a compra de equipamentos
num rodízio licitatório entre 4 parentes do Prefeito.
O Vereador Peduca, da base do governo, reclamava
que João do Ovo, do PDT havia impedido uma máquina da Prefeitura de limpar uma
vala na Fazenda do Max seu reduto eleitoral. Dário Berger se achou
desrespeitado pelo veto que Germano encaminhou, sobre seu projeto de
regulamentação das funerárias sem ao menos lhe consultar. Protázio Machado
disse que o Prefeito só conhece os bairros de Campinas e Kobrasol, o restante
do município está à míngua. Que ele vive chamando os membros da CPI de
vagabundos e estava na hora de acabar de uma vez com essa patifaria. Édio
Vieira falou no estado caótico da cidade e Fernando anunciava que já cabia uma
ação por improbidade, pois uma prefeitura que tem um bilhão de cruzeiros em
caixa não pode privar seu povo das mais básicas necessidades.
Em 6 de abril a denuncia foi acatada por 15
votos favoráveis e iniciava-se o processo de afastamento. No sorteio, Salézio
Zimmermann, Turíbio Martins e Fernando Elias foram os escolhidos.
No dia 11 foram protocoladas as CPIs do areal
e da compra de equipamentos. Dois dias após várias denúncias de cooptação,
oferecimento de dinheiro, carros novos e cargos públicos. Perseguições,
vigilância e espreita norteatavam o clima reinante. Discursos acalorados
geraram frases antológicas “-Não se pode
separar o Prefeito do cidadão, pois eles andam juntos. Porque quando o cidadão
não tem dignidade, na condição de Prefeito ele também não a tem.” Até
ameaças de morte foram denunciadas e um revolver apontado para Fernando Elias.
Orvino se declarou impedido de participar de uma das CPIs. Para sua vaga foi sorteada
Rose Pauli, que esteve ausente na maioria dos estudos e debates e também não
compareceu para votar no dia 27 de abril quando foi anunciado vago o cargo.
No mesmo dia o vice Gervásio Silva tomou
posse e dois dias depois declarou que aguardava o retorno do Prefeito; Fernando
Elias disse estar indignado com a atitude. Germano tentou sem êxito seu retorno
na Justiça e o Decreto Legislativo 059/94, de 25 de maio cassou definitivamente
seu mandato, que Gervásio concluiu, tomando posse definitiva em 3 de junho. O
novo Prefeito em 2 anos e 8 meses fez um governo revolucionário, empreendedor e
de sucesso. Traçou um projeto pioneiro para o sistema viário, fez obras de
grandes avanços sociais e começou a pavimentação de mais de 1000 ruas de chão
batido e esgoto a céu aberto, tudo de graça, o oposto dos velhos tempos, quando
se pagava para calçar 100 m de rua. Elegeu seu sucessor, Dário Berger com o
Vice Lauro Guesser, em 1996, deixando uma dívida de 15 milhões. Na mesma
eleição, 12 vereadores se reelegeram. Salézio Zimmermann elegeu-se Prefeito de
São Pedro de Alcântara. Cândido Damásio não concorreu e elegeu o filho
Candinho. Protázio, Rose Pauli, Peduca, João Celso, e Turíbio Martins perderam
a eleição. Ernei Stahelin disputou a Prefeitura em São Pedro e perdeu para
Salézio. Ganhou em 2004, e também se reelegeu em 2008. Em 2012 fez o sucessor,
Palica, novamente contra Salézio, cuja candidatura foi questionada.
Novos Vereadores de São José se elegiam pela
primeira vez: Luiz Raupp, José Francisco da Rosa, e Elenita Koerich, pelo PPB;
Eugênio Cunha e Maria das Graças Pereira, PSDB, Valdeci Junckes, PDT, Carlos
Acelino, PFL, Nilson Merize, PTB e Cândido Zimmermann Damásio pelo PMDB.
Uma guinada sem precedentes que colocou a
cidade de São José definitivamente no contexto dos centros urbanos civilizados,
conhecida e reconhecida nos planos estadual e federal.
Com o lema “O trabalho vai continuar” Dário
se reelegeu no ano 2000 com 84,72% dos votos. Pavimentou quase toda a cidade,
construiu a Beira-Mar, a Avenida das Torres, 10 postos de saúde e mais de 30
escolas e creches. Em 2004 elegeu-se Prefeito da Capital, ficando no cargo por
8 anos.
Gervásio se tornou Deputado Federal, em 1998
e foi reeleito em 2002.
Quatro dias após a posse do Prefeito Gervásio, o
povo brasileiro assistiu comovido pela TV a morte de seu ídolo da Fórmula I,
Ayrton Senna, no dia 1⁰ de Maio.
Personagens de um tempo quente: Vereadores Natal, João
do Ovo, Juquinha e Capitão. Após o afastamento José Natal foi o único
Secretário que colocou seu cargo a disposição.
Vereador Salézio Zimmermann (1992/96) – Com a
emancipação foi eleito 1⁰ Prefeito de São Pedro de Alcântara (1996). Governou a
cidade por 8 anos.


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