quarta-feira, 3 de abril de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 




Águas de Março:
Impeachment e Emancipação


E lá se foram 19 anos as águas de março de 1994, ao assolarem Barreiros e Forquilhinha, trouxeram o prenúncio da cassação. Traziam a memória de outras águas, as do Rio Araújo, onde, dizem, foram parar as três urnas de Barreiros, que tiraram a vitória de Marli Marçal na eleição de 1992, por 285 votos. Conta-se que após a apuração cédulas eleitorais originais foram espalhadas em frente à Prefeitura, numa provocação sem igual aos que perderam. O primeiro torpedo foi disparado por Lauro Guesser, que fez 14.043 votos com seu vice, Pedro Gazaniga. Na tribuna ele desabafou: “–Foi a maior extorsão eleitoral de nossa história. Os métodos utilizados deram um resultado altamente suspeito (08/10/1992). Além disso, nunca se distribuiu tanto barro, madeira e tijolo como nessa eleição.”
Os rios Três Henriques e Maruim fizeram os estragos conhecidos em Barreiros e nas bacias do Flor de Nápolis, Los Angeles e Sertão, desanimando também o povo de São Pedro de Alcântara, que ansiava pela independência. Para tanto contaram com as vozes de Ernei Stahelin e Salézio Zimmermann, que dessa vez não viveram a frustração do distrito de Barreiros, não emancipado por falta de quorum nas urnas. Em 13 de abril, o governo do Estado assinou o Decreto de emancipação, diminuindo a área territorial de São José em 55%. Mas o Estado também dava ao novo Município, um presente de grego: o Presídio Regional, cujas tratativas já estavam bem adiantadas na época.
“As águas vão rolar.” O antigo refrão musical ilustrava o desastre. O Prefeito que se orgulhava de ter muito dinheiro no caixa, não visitou as áreas atingidas, nem recebeu uma Comissão de Vereadores para minimizar os problemas. Tendo “vencido” a eleição com apenas 8 dos 21 vereadores, subestimava todo o Parlamento e até seus próprios aliados, não atendia ninguém, insuflado por puxa sacos e bajuladores sem voto, que ainda hostilizavam os eleitos. Qualquer semelhança com nossa história recente não é mera coincidência. Nos últimos 8 anos tivemos atitudes semelhantes, até com muitos “estrangeiros” deitando e rolando sobre quem botou a cara prá bater nas urnas e tripudiando sobre os servidores efetivos.
Os primeiros movimentos para apear o Prefeito do trono iniciaram ao final do primeiro ano de governo. Bem não acabaram os rumores da CPI que investigou irregularidades nas compras da Secretaria de Educação, as águas voltaram a selar destinos. Novos caminhos da improbidade surgiram com a descoberta do areal de propriedade do Prefeito, que forneceu 500 caçambadas para o Município. Num balanço do primeiro ano Fernando Elias abriu a caixa de ferramentas, em 24 de novembro na tribuna: "-Este é um governo acéfalo, anômalo, arcaico, retrogrado, que não sabe andar por si só”, disparou. “É um governo que só está interessado na economia. Não tem dívidas, mas também não tem obras. Visa apenas o lucro das operações financeiras e não o lucro social que o quarto município catarinense merece. Se não tem obras, prá que tanta areia? Este cidadão tem que ser interditado!”
O caldeirão começou a ferver.
Na Câmara, a maioria governista se esvaiu, Ademar Koerich o líder do Governo tentava explicar o inexplicável, se virava nos trinta com tantos pedidos de informações e rejeição de vetos e projetos, sendo inclusive agredido fisicamente no gabinete do Prefeito, em frente às câmeras de 3 canais de TV. O Presidente Orvino, da bancada governista, administrava uma saia justa para conter a rebeldia. A bancada do PMDB liderada por Protázio Machado estava indócil, o PDS de Marli Marçal também, José Natal era Secretário de Barreiros e seu suplente imediato Elson Coelho somava 6 aliados, incluindo João do Ovo, único do PDT.
Três CPIs foram instaladas com ampla maioria. Documentos e denúncias choveram. Uns provavam que os carnês de IPTU foram feitos por compra direta e legalizados posteriormente com uma licitação fria. Outros denunciavam o escândalo do areal e muitos documentavam a compra de equipamentos num rodízio licitatório entre 4 parentes do Prefeito.
O Vereador Peduca, da base do governo, reclamava que João do Ovo, do PDT havia impedido uma máquina da Prefeitura de limpar uma vala na Fazenda do Max seu reduto eleitoral. Dário Berger se achou desrespeitado pelo veto que Germano encaminhou, sobre seu projeto de regulamentação das funerárias sem ao menos lhe consultar. Protázio Machado disse que o Prefeito só conhece os bairros de Campinas e Kobrasol, o restante do município está à míngua. Que ele vive chamando os membros da CPI de vagabundos e estava na hora de acabar de uma vez com essa patifaria. Édio Vieira falou no estado caótico da cidade e Fernando anunciava que já cabia uma ação por improbidade, pois uma prefeitura que tem um bilhão de cruzeiros em caixa não pode privar seu povo das mais básicas necessidades.
Em 6 de abril a denuncia foi acatada por 15 votos favoráveis e iniciava-se o processo de afastamento. No sorteio, Salézio Zimmermann, Turíbio Martins e Fernando Elias foram os escolhidos.
No dia 11 foram protocoladas as CPIs do areal e da compra de equipamentos. Dois dias após várias denúncias de cooptação, oferecimento de dinheiro, carros novos e cargos públicos. Perseguições, vigilância e espreita norteatavam o clima reinante. Discursos acalorados geraram frases antológicas “-Não se pode separar o Prefeito do cidadão, pois eles andam juntos. Porque quando o cidadão não tem dignidade, na condição de Prefeito ele também não a tem.” Até ameaças de morte foram denunciadas e um revolver apontado para Fernando Elias. Orvino se declarou impedido de participar de uma das CPIs. Para sua vaga foi sorteada Rose Pauli, que esteve ausente na maioria dos estudos e debates e também não compareceu para votar no dia 27 de abril quando foi anunciado vago o cargo.
No mesmo dia o vice Gervásio Silva tomou posse e dois dias depois declarou que aguardava o retorno do Prefeito; Fernando Elias disse estar indignado com a atitude. Germano tentou sem êxito seu retorno na Justiça e o Decreto Legislativo 059/94, de 25 de maio cassou definitivamente seu mandato, que Gervásio concluiu, tomando posse definitiva em 3 de junho. O novo Prefeito em 2 anos e 8 meses fez um governo revolucionário, empreendedor e de sucesso. Traçou um projeto pioneiro para o sistema viário, fez obras de grandes avanços sociais e começou a pavimentação de mais de 1000 ruas de chão batido e esgoto a céu aberto, tudo de graça, o oposto dos velhos tempos, quando se pagava para calçar 100 m de rua. Elegeu seu sucessor, Dário Berger com o Vice Lauro Guesser, em 1996, deixando uma dívida de 15 milhões. Na mesma eleição, 12 vereadores se reelegeram. Salézio Zimmermann elegeu-se Prefeito de São Pedro de Alcântara. Cândido Damásio não concorreu e elegeu o filho Candinho. Protázio, Rose Pauli, Peduca, João Celso, e Turíbio Martins perderam a eleição. Ernei Stahelin disputou a Prefeitura em São Pedro e perdeu para Salézio. Ganhou em 2004, e também se reelegeu em 2008. Em 2012 fez o sucessor, Palica, novamente contra Salézio, cuja candidatura foi questionada.
Novos Vereadores de São José se elegiam pela primeira vez: Luiz Raupp, José Francisco da Rosa, e Elenita Koerich, pelo PPB; Eugênio Cunha e Maria das Graças Pereira, PSDB, Valdeci Junckes, PDT, Carlos Acelino, PFL, Nilson Merize, PTB e Cândido Zimmermann Damásio pelo PMDB.
Uma guinada sem precedentes que colocou a cidade de São José definitivamente no contexto dos centros urbanos civilizados, conhecida e reconhecida nos planos estadual e federal.
Com o lema “O trabalho vai continuar” Dário se reelegeu no ano 2000 com 84,72% dos votos. Pavimentou quase toda a cidade, construiu a Beira-Mar, a Avenida das Torres, 10 postos de saúde e mais de 30 escolas e creches. Em 2004 elegeu-se Prefeito da Capital, ficando no cargo por 8 anos.
Gervásio se tornou Deputado Federal, em 1998 e foi reeleito em 2002.
Quatro dias após a posse do Prefeito Gervásio, o povo brasileiro assistiu comovido pela TV a morte de seu ídolo da Fórmula I, Ayrton Senna, no dia 1 de Maio.


Personagens de um tempo quente: Vereadores Natal, João do Ovo, Juquinha e Capitão. Após o afastamento José Natal foi o único Secretário que colocou seu cargo a disposição.


Vereador Salézio Zimmermann (1992/96) – Com a emancipação foi eleito 1⁰ Prefeito de São Pedro de Alcântara (1996). Governou a cidade por 8 anos.

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