sexta-feira, 12 de abril de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 


Também, por quê?
“Banana”, cidadão de Barreiros



            Em tempos de eleição, rivalidades bairristas despertam disputas pessoais e atitudes extremas e hilárias. Na eleição de 2000, a tropa de choque de meu aprendiz de coroinha Neri Amaral espalhou em Areias que eu estava com AIDS. Não era pra menos. Havia perdido 6kg no estresse da campanha e eles inventaram a maldosa curiosidade, que me rendeu uns votinhos a mais nas urnas. “Coitadinho, tá com AIDS, vou votar nele”.
            Até hoje cruzo com velhinhas amigas, ansiosas pela minha melhora, se estou bonzinho, fiquei muito tempo internado, se fui para Curitiba me tratar, etc. Para algumas eu respondo que os coquetéis de hoje em dia são excelentes.
Não guardo essas neuras na gaveta, nem mágoas, não absorvo as porradas, mesmo porque sou assumidíssimo na minha opção sexual, nunca tive máscaras e bem cedo saí do armário, consciente de que a sexualidade não faz o homem.
Conheço tantos machões verdadeiras mãezonas, que avacalhavam com as bibas, mas há anos nunca os vi com uma mulher, embora assoviem e fazem gracinhas em grupo, na passagem delas. E outros quando tem a sorte de topar com uma mariposa na calada da noite, logo querem chegar aos finalmente. Como também sou vítima dos rótulos, o que me irrita é que sou muito mais homem que a maioria deles, mas só eu que levo a fama.
Sem falar nos que caçam travecos no silêncio da cidade adormecida, querendo ser seduzidos por uma caricatura de fêmea. É a fantasia da libido reprimida, disfarçada por máscaras que só caem na madruga ou na privacidade de um quarto. Como acho tudo muito humano e nada me é estranho, dou corda e troco para muitas gozações.
Quantas viagens fiz com vários héteros e eles babavam ao ver uma gatona, comentando, possivelmente para me provocar: “que tesão”, e eu respondia de pronto: “obrigado”.
Quando me tornei Presidente da Câmara pela primeira vez, meu amigo Édio viajou na gozação, dizendo que seria muito engraçado me ver presidindo a sessão de salto agulha, unhas postiças azuis, dedinho arqueado para chamar os colegas vereadores.
Fui Presidente por dois mandatos e sempre tive o respeito e a amizade de todos. Só coloquei o salto alto e a meia arrastão no Zé Folia 2012, na Beira-Mar.
No bar do Bica, jogando tranca, muitas vezes me comentam ao ver alguém da irmandade: “Aquele cara ali é barrote também”. E eu, sem ficar por baixo: “Também por quê?”.
Bichas antológicas sempre encantaram todas as cidades. Em Floripa tinha o Nézinho, o Armandinho, o Dico a Draga, a Brigite e outras tantas.
As mais famosas de São José foram o Caju da Sombra, o Pão de Leite, o Nelsinho, o Chico da Carola o Peta e, claro, o Banana.
Caju da Sombra era uma biba comedida, discreta, que passava as tardes caçando na janela, na Praia Comprida. Era tão moça, mas tão moça, que tinha até uma almofadinha de apoio na forra da janela, para não assar os cotovelos.
Banana era original. Com seu topete engomado de brilhantina, não desmunhecava e se não abrisse a boca, difícil acreditar que era boiola.
Newton José Kuhnen, o Banana era o que os chacoteiros tacham de maricão, viado, biba, baitola, bóca, fruta, barrote, copo, bambi, mãe, moça, marica, barbie, libélula, fresco e outros tantos adjetivos. E haja criatividade popular: dá a ré no kibe, peida na farofa, quebra louça, bate facão, queima rosca.
Como dizem na gozação, Banana “dormia na caixa”, era “carrinho do paraguai”, mas um grande ser humano.
Fez história na várzea metropolitana, apitando partidas, escalando times, fazendo massagens. Atuou em todos os campos de futebol de nossa região, com seu inseparável agasalho azul, da cor da pochete, (era avaiano). Corria o jogo todo e empunha respeito aos marmanjos boleiros, briguentos, numa época em que as partidas sem policiamento dificilmente acabavam sem pancadaria. Quando os ânimos se exaltavam e as coisas fugiam ao controle, ele baixava as calças e mostrava a bunda branca pra galera, serenando os ânimos. Quando não era possível continuar a pelada, encerrava o jogo e saia xingando aos berros: “suas machorras, vão jogar futebol”.
É impossível contar quantos atletas carimbaram o passaporte com o Banana. A fama é grande, perguntem pro Neri, que batia bola no Bandeirante, onde hoje é o Shopping Ideal, e vivia nos Campos  do Nacional, São Geraldo, Ipiranga, América, e tantos outros de Biguaçu, Palhoça, Antônio Carlos e Santo Amaro.
Newton desde pequeno vendia banana recheada nos campos, para ajudar a mãe Alvina, que criava cabras e até sua morte trabalhou de vigilante. Diziam que fazia horrores com as toalhinhas que cobriam as bananas. Morava na Álvaro Medeiros Santiago ao lado do Giassi. Certa vez ao visitá-lo, a evangélica Dona Alvina reclamou que ia morrer e não ver seu filho casar. Ele replicava que as mulheres eram todas umas quengas, e casamento era coisa séria. Dona Alvina argumentava que não era bem assim, procurando bem se acha uma moça boa pra casar. Tem mãe que é cega.
Banana era um cidadão de bem e do bem. Trabalhador, honesto, cumpridor de seus deveres, sempre sóbrio, não bebia nem se drogava, seu único vício era o cigarro. A cidade de São José lhe deve um tributo. Está aí uma boa dica para aprovar honraria e dar nome de rua a Newton José Kuhnen.
Banana morreu de repente e nunca mais se falou dele. Um grande cidadão que muito trabalhou e se dedicou ao futebol amador de nossa Terra.
Aos que lhe faziam chacota, Banana ameaçava com um caderninho que ia deixar para a posteridade. Não teve tempo, morreu cedo e jovem, deixando alguns plantéis aliviados.
Salve Banana!

Em tempo: quem “dorme na caixa” é boneca e “carrinho do Paraguai” é aquele com que a gente dá só uma brincadinha e já vai soltando a rodinha.




Chocolate FC – Areias. De pé: Paulinho, João da Salga, Cezinha, Bá, Careca, Ico, Seda e Banana. Agachados: Os irmãos Henrique, Eduardo e Edmilson, Adriano, Pelela e Laro.


 O centroavante Vavá (falecido) e o ponta esquerda Moacir (ou Franciele, um dos melhores do nosso tempo). Moacir também dorme na caixa e é técnico em enfermagem.



São Pedro FC de Areias. De pé: Célio, Batista, Zé, Pequeno, Norinho, Tinho e Gilmar. Agachados: Boné e o filho Alex, Valdenésio e o filho Kleber, Lica, Nilsinho, Nauri e Vavá.



Campo do São Geraldo. Lica, Acelino e Tony (Juiz). No local, frente ao CTG Peitoral de Ouro, foi construído um conjunto residencial com vários prédios.

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