CAIXINHA DE SURPRESAS
Apesar de sagrado, e de
representar a vontade popular, o voto para mim sempre teve uma aura de
prostituta. Não sei bem discernir se foi o povo ou os políticos que o jogaram
na vala. Com o tempo, a real importância do voto, ficou relegada a falsas
promessas, propostas e ações impossíveis na prática e pedidos absurdos. Em
campanha políticos e eleitores mentem constantemente pelo voto e os escrúpulos
vão prá cucuia. Num universo de mais de 200 candidatos, as chances de emplacar
diminuem a cada atitude impensada do candidato, ou estratégia equivocada na
campanha. Afinal, a disputa
é quase igual a um vestibular. No ano passado foram 214 candidatos concorrentes
para 13 vagas.
Já no começo há uma prévia
dos possíveis ganhadores, levando em conta a popularidade, a empatia, o uso da
máquina, o poder financeiro, e isso já assusta quem concorre.
Para complicar o meio de campo,
há o quociente eleitoral, uma conta estranha feita ao final da apuração. Ninguém
sabe de antemão quantos votos precisa para se eleger. Assim, pode-se ganhar com
poucos votos ou perder com muitos. O quociente eleitoral é o total de votos que
cada partido deve obrigatoriamente conseguir, para preencher uma vaga na
Câmara, e só é possível obtê-lo após contados todos os votos da eleição,
inclusive os brancos e votos de legendas. Os nulos não entram na conta.
Dividi-se o total geral de todos pelo número de cadeiras no Parlamento,
obtendo-se a quantidade mínima que cada partido deve fazer na totalidade dos seus
candidatos para conseguir uma vaga. As sobras ou médias definem as vagas
remanescentes.
O cidadão diz que não gosta
de política e de políticos, mas adora urna. Basta ver a grande festa que é o
dia de eleições. Um grande envolvimento da cidade e sai todo mundo da toca para
fazer valer o seu direito e cumprir o dever civil. Chovem piadas sobre
candidatos, alguns folclóricos, e muita sacanagem na escolha dos menos piores.
Sempre falam mal dos políticos mas quando a água bate na bunda, eles são imediatamente
chamados para resolver as buchas.
No cantinho da urna, o cidadão
tem o livre arbítrio de manifestar sua vontade e nela depositar anseio ou protesto.
Com a inovação da urna eletrônica, foi-se o tempo de escrever sacanagens na
cédula. Assim que surgiu a urna digital, lembrei-me da tia Salomé ao discar no
seu primeiro telefone. O número seria 32445879 e ela começou a teclar: 3, 2, 4
... cadê o outro quatro?
Política é a arte de engolir
sapos. É o ato de tentar agradar a todos, buscando um incerto resultado
eleitoral futuro.
Quantos juraram de pé junto
que tinham votado em mim e eu contei até dez para não dizer-lhes uns desaforos,
sabedor de suas pendengas com outros colegas candidatos, a quem deviam favores,
parentesco, amizade, gratidão e, muitas vezes, emprego. O voto, portanto, é
algo indecifrável. Vota- se por amizade, empatia, beleza, inteligência, gratidão,
admiração e,lógico, favores. Por mais que se apregoe o interesse coletivo, a
maioria dos cidadãos exerce uma cultura atrasada, herança do coronelismo,
quando sempre era preciso dar algo em troca para conquistar o voto. Muita
coragem é necessária a quem enfrenta o julgamento das urnas, e também muita
disposição e paciência no exercício do cargo público. No caso do vereador,
certas situações beiram o absurdo. Com a vitória, herdamos todos os buracos das
ruas, as valas entupidas, as enchentes, o lixo dos terrenos baldios, a falta de
vagas nas creches, de remédios, exames e médicos, a iluminação pública, a
insegurança social, enfim, todas a mazelas que devem ser sanadas pelo Poder Executivo.
Assim, transfere-se para o vereador aquilo que compete ao prefeito fazer. Na
campanha, somos assediados por todos os tipos, a mulher linguaruda, o chopim de
gabinetes, o mordedor, o bêbado que abraça, beija e baba no seu ombro, o cara
que fala que andas sumido, os que te xingam gratuitamente.
Perdi duas vagas nas
eleições de 1988 e 1992, embora sido em ambas bem votado. Coisas da legenda. Na
apuração da eleição de 1992 eu disparava na frente a cada mapa publicado.Quando
os resultados pararam de ser divulgados já achava que a indústria da sacanagem
havia começado a funcionar. A apuração manual levantava suspeição quanto aos
critérios utilizados e os conchavos por ventura armados, e quem esperava os
mapas sempre ficava com a pulga atrás da orelha. Na rua, em frente ao Ginásio
do Sesi, Ângela, minha irmã, estava com o coração na boca. Duas horas se
passaram e veio o resultado final que a fez chorar copiosamente, xingando os
traíras, enganadores e inescrupulosos eleitores. Finalmente o juiz eleitoral
Jaime Vicari apresentou o resultado final da votação e no PDT ele era bem
diferente do previsto pelo pai de santo Romualdo, dias antes no salão do
Visual, na presença de Hermínio e Jane. Em transe espiritual, ele traçou um
risco de giz no assoalho, espetou um punhal no centro e vaticinou: “não vejo ninguém na tua frente”.
Ele não enxergou 14
candidatos mais bem votados na geral e não viu no PDT João do Ovo, Fernando Elias
e Gilson Junckes fazendo as três únicas vagas da sigla e me deixando de
primeiro suplente por 22 votos. Desalentado, já como suplente, murmurei
baixinho: “não sei como eles conseguem
enganar tanta gente!”. Mas tudo bem, eu estava vivo, e achava que política
não era prá mim. Já havia amargado 4 anos como primeiro suplente de Agostinho
Pauli, PSC, o mais votado no município em 1988, 805 votos. Num tempo em que
suplente não gemia, e nem tinha vez mesmo, assumi a Câmara por 32 dias, uma
gentileza de Agostinho, pois o governo Diocéles ignorava totalmentre os
suplentes.
Meu primeiro debu nas urnas
foi em 1988, pelo PSC, o Partido do peixinho, em campanha com santinhos xerocados.
Agostinho também disputava na sigla e rodava o bairro inteiro de bicicleta, conquistando
a única vaga do peixinho. Embora bem votado, o 11⁰ na classificação geral para uma Câmara de 19 cadeiras, fiquei
em segundo lugar, 486 votos. Solange Hermes e João Bittencourt Furtado eram os
suplentes subsequentes, 325 e 310 votos, respectivamente. Bem que na campanha,
os adversários já agouravam para eu ter cuidado com a bicicletinha do
Agostinho. Meu cabo eleitoral Dé ficou arrasado com minha derrota e disse que
não ia comer peixe por um bom tempo.
Desacorssoado, jurei nunca
mais disputar eleição e fui morar em Balneário Camboriú, gerenciando o Hotel
Marambaia. Gegê e Dário lá surgiram em 1995 querendo me filiar no PFL, o
tubarão dos partidos, onde só as feras do voto emplacavam: Ademar Koerich,
Juquinha, Adi Xavier, José Natal (mais votado em 1992), Édio Vieira, Capitão, Vanildo
Macedo davam as cartas do difícil jogo eleitoral e o tom da campanha de 1996.
Preocupado com a legenda,
Édio disse-me que era a vez de eu comer um peixe grande, pois só tinha perdido em
partidos nanicos. Convenceram-me de que eu teria chance, pois Dário era
candidato a Prefeito, e o Capitão se debandara para o PMDB. Ou seja, troquei seis
por meia dúzia, pois o Partido agora tinha João do Ovo no plantel e a
perspectiva não passava de 7 vagas. Sem contar os papas que disputavam em
outras legendas, Orvino, o imbatível, Gilson Junckes, Fernando Elias e os
iniciantes Luiz Raupp, Zé da Padaria, Elenita, Candinho Filho, Paulo Ferreira,
Eugênio Cunha, Maria das Graças, Macarrão e Nilson Merize, todos finalmente
eleitos comigo, que fiz a sexta vaga do PFL na média, com as calças na mão,
1324 votos.
De lá pra cá, não perdi mais
nenhuma. Fiz 1968 votos em 2000, em 2004 não concorri e emplaquei 2870 em 2008.
Agora, só lembranças e a convicção de que não posso reclamar de minha vida
política. Fui um vitorioso.
Foram 25 anos na estrada,
milhares de atendimentos a qualquer hora no portão, e a vivência de tantos
embróglios, falsidades, brigas, discussões, saias justas, conspirações, conflitos
e cenas hilárias que dariam um livro.
Pelo menos, a gente se
diverte bastante. Em 2000, Geraldino dos Passos reclamou no comitê do PFL que haviam
desenhado um pênis em toda as suas placas do Kobrasol. Querendo, confortá-lo
disse para ignorar o episódio. É assim mesmo, em toda eleição a gente recebe
afagos, aplausos, desaforos e até a sanha de cabos eleitorais tinhosos. Imagine
você, Geraldino, que numa placa minha do Bela Vista, escreveram “viado”, desenharam um pênis e colocaram um bigode fu-man-chu.
Perguntado sobre as
providências tomadas disse-lhe: “Mandei
tirar o bigode”.
Vereador Altevir Schmitz
(PSDB): Fez 654 votos na eleição de 2000 e se elegeu. Na mesma eleição Edilson
Vieira perdeu a vaga no PPB com mais do que o dobro (1366).
Vereador Edilson Vieira: Perdeu
em 2004, com 2230 votos. Elegeu-se com 1397 em 2008 e na última eleição ficou
de fora com 2072.
Vereador Lédio Coelho – Eleito
em 2000 com 1722 votos no PFL. Em 2004, perdeu a eleição no mesmo partido com
2362 votos e se elegeu em 2008 com 1118. Em 2012 perdeu, no PSD com 1606
Vereador Protázio Machado, PMDB
(de paletó branco). Eleito com 313 votos em 1988. Nessa disputa 18 candidatos
obtiveram mais votos que ele e perderam a eleição.




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