segunda-feira, 6 de maio de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 


CAIXINHA DE SURPRESAS


Apesar de sagrado, e de representar a vontade popular, o voto para mim sempre teve uma aura de prostituta. Não sei bem discernir se foi o povo ou os políticos que o jogaram na vala. Com o tempo, a real importância do voto, ficou relegada a falsas promessas, propostas e ações impossíveis na prática e pedidos absurdos. Em campanha políticos e eleitores mentem constantemente pelo voto e os escrúpulos vão prá cucuia. Num universo de mais de 200 candidatos, as chances de emplacar diminuem a cada atitude impensada do candidato, ou estratégia equivocada na campanha. Afinal, a  disputa é quase igual a um vestibular. No ano passado foram 214 candidatos concorrentes  para 13 vagas.
Já no começo há uma prévia dos possíveis ganhadores, levando em conta a popularidade, a empatia, o uso da máquina, o poder financeiro, e isso já assusta quem concorre.
Para complicar o meio de campo, há o quociente eleitoral, uma conta estranha feita ao final da apuração. Ninguém sabe de antemão quantos votos precisa para se eleger. Assim, pode-se ganhar com poucos votos ou perder com muitos. O quociente eleitoral é o total de votos que cada partido deve obrigatoriamente conseguir, para preencher uma vaga na Câmara, e só é possível obtê-lo após contados todos os votos da eleição, inclusive os brancos e votos de legendas. Os nulos não entram na conta. Dividi-se o total geral de todos pelo número de cadeiras no Parlamento, obtendo-se a quantidade mínima que cada partido deve fazer na totalidade dos seus candidatos para conseguir uma vaga. As sobras ou médias definem as vagas remanescentes.
O cidadão diz que não gosta de política e de políticos, mas adora urna. Basta ver a grande festa que é o dia de eleições. Um grande envolvimento da cidade e sai todo mundo da toca para fazer valer o seu direito e cumprir o dever civil. Chovem piadas sobre candidatos, alguns folclóricos, e muita sacanagem na escolha dos menos piores. Sempre falam mal dos políticos mas quando a água bate na bunda, eles são imediatamente chamados para resolver as buchas.
No cantinho da urna, o cidadão tem o livre arbítrio de manifestar sua vontade e nela depositar anseio ou protesto. Com a inovação da urna eletrônica, foi-se o tempo de escrever sacanagens na cédula. Assim que surgiu a urna digital, lembrei-me da tia Salomé ao discar no seu primeiro telefone. O número seria 32445879 e ela começou a teclar: 3, 2, 4 ... cadê o outro quatro?
Política é a arte de engolir sapos. É o ato de tentar agradar a todos, buscando um incerto resultado eleitoral futuro.
Quantos juraram de pé junto que tinham votado em mim e eu contei até dez para não dizer-lhes uns desaforos, sabedor de suas pendengas com outros colegas candidatos, a quem deviam favores, parentesco, amizade, gratidão e, muitas vezes, emprego. O voto, portanto, é algo indecifrável. Vota- se por amizade, empatia, beleza, inteligência, gratidão, admiração e,lógico, favores. Por mais que se apregoe o interesse coletivo, a maioria dos cidadãos exerce uma cultura atrasada, herança do coronelismo, quando sempre era preciso dar algo em troca para conquistar o voto. Muita coragem é necessária a quem enfrenta o julgamento das urnas, e também muita disposição e paciência no exercício do cargo público. No caso do vereador, certas situações beiram o absurdo. Com a vitória, herdamos todos os buracos das ruas, as valas entupidas, as enchentes, o lixo dos terrenos baldios, a falta de vagas nas creches, de remédios, exames e médicos, a iluminação pública, a insegurança social, enfim, todas a mazelas que devem ser sanadas pelo Poder Executivo. Assim, transfere-se para o vereador aquilo que compete ao prefeito fazer. Na campanha, somos assediados por todos os tipos, a mulher linguaruda, o chopim de gabinetes, o mordedor, o bêbado que abraça, beija e baba no seu ombro, o cara que fala que andas sumido, os que te xingam gratuitamente.
Perdi duas vagas nas eleições de 1988 e 1992, embora sido em ambas bem votado. Coisas da legenda. Na apuração da eleição de 1992 eu disparava na frente a cada mapa publicado.Quando os resultados pararam de ser divulgados já achava que a indústria da sacanagem havia começado a funcionar. A apuração manual levantava suspeição quanto aos critérios utilizados e os conchavos por ventura armados, e quem esperava os mapas sempre ficava com a pulga atrás da orelha. Na rua, em frente ao Ginásio do Sesi, Ângela, minha irmã, estava com o coração na boca. Duas horas se passaram e veio o resultado final que a fez chorar copiosamente, xingando os traíras, enganadores e inescrupulosos eleitores. Finalmente o juiz eleitoral Jaime Vicari apresentou o resultado final da votação e no PDT ele era bem diferente do previsto pelo pai de santo Romualdo, dias antes no salão do Visual, na presença de Hermínio e Jane. Em transe espiritual, ele traçou um risco de giz no assoalho, espetou um punhal no centro e vaticinou: “não vejo ninguém na tua frente”.
Ele não enxergou 14 candidatos mais bem votados na geral e não viu no PDT João do Ovo, Fernando Elias e Gilson Junckes fazendo as três únicas vagas da sigla e me deixando de primeiro suplente por 22 votos. Desalentado, já como suplente, murmurei baixinho: “não sei como eles conseguem enganar tanta gente!”. Mas tudo bem, eu estava vivo, e achava que política não era prá mim. Já havia amargado 4 anos como primeiro suplente de Agostinho Pauli, PSC, o mais votado no município em 1988, 805 votos. Num tempo em que suplente não gemia, e nem tinha vez mesmo, assumi a Câmara por 32 dias, uma gentileza de Agostinho, pois o governo Diocéles ignorava totalmentre os suplentes.
Meu primeiro debu nas urnas foi em 1988, pelo PSC, o Partido do peixinho, em campanha com santinhos xerocados. Agostinho também disputava na sigla e rodava o bairro inteiro de bicicleta, conquistando a única vaga do peixinho. Embora bem votado, o 11 na classificação geral para uma Câmara de 19 cadeiras, fiquei em segundo lugar, 486 votos. Solange Hermes e João Bittencourt Furtado eram os suplentes subsequentes, 325 e 310 votos, respectivamente. Bem que na campanha, os adversários já agouravam para eu ter cuidado com a bicicletinha do Agostinho. Meu cabo eleitoral Dé ficou arrasado com minha derrota e disse que não ia comer peixe por um bom tempo.
Desacorssoado, jurei nunca mais disputar eleição e fui morar em Balneário Camboriú, gerenciando o Hotel Marambaia. Gegê e Dário lá surgiram em 1995 querendo me filiar no PFL, o tubarão dos partidos, onde só as feras do voto emplacavam: Ademar Koerich, Juquinha, Adi Xavier, José Natal (mais votado em 1992), Édio Vieira, Capitão, Vanildo Macedo davam as cartas do difícil jogo eleitoral e o tom da campanha de 1996.
Preocupado com a legenda, Édio disse-me que era a vez de eu comer um peixe grande, pois só tinha perdido em partidos nanicos. Convenceram-me de que eu teria chance, pois Dário era candidato a Prefeito, e o Capitão se debandara para o PMDB. Ou seja, troquei seis por meia dúzia, pois o Partido agora tinha João do Ovo no plantel e a perspectiva não passava de 7 vagas. Sem contar os papas que disputavam em outras legendas, Orvino, o imbatível, Gilson Junckes, Fernando Elias e os iniciantes Luiz Raupp, Zé da Padaria, Elenita, Candinho Filho, Paulo Ferreira, Eugênio Cunha, Maria das Graças, Macarrão e Nilson Merize, todos finalmente eleitos comigo, que fiz a sexta vaga do PFL na média, com as calças na mão, 1324 votos.
De lá pra cá, não perdi mais nenhuma. Fiz 1968 votos em 2000, em 2004 não concorri e emplaquei 2870 em 2008. Agora, só lembranças e a convicção de que não posso reclamar de minha vida política. Fui um vitorioso.
Foram 25 anos na estrada, milhares de atendimentos a qualquer hora no portão, e a vivência de tantos embróglios, falsidades, brigas, discussões, saias justas, conspirações, conflitos e cenas hilárias que dariam um livro.
Pelo menos, a gente se diverte bastante. Em 2000, Geraldino dos Passos reclamou no comitê do PFL que haviam desenhado um pênis em toda as suas placas do Kobrasol. Querendo, confortá-lo disse para ignorar o episódio. É assim mesmo, em toda eleição a gente recebe afagos, aplausos, desaforos e até a sanha de cabos eleitorais tinhosos. Imagine você, Geraldino, que numa placa minha do Bela Vista, escreveram “viado”, desenharam um pênis e colocaram um bigode fu-man-chu.
Perguntado sobre as providências tomadas disse-lhe: “Mandei tirar o bigode”.




Vereador Altevir Schmitz (PSDB): Fez 654 votos na eleição de 2000 e se elegeu. Na mesma eleição Edilson Vieira perdeu a vaga no PPB com mais do que o dobro (1366).


Vereador Edilson Vieira: Perdeu em 2004, com 2230 votos. Elegeu-se com 1397 em 2008 e na última eleição ficou de fora com 2072.


Vereador Lédio Coelho – Eleito em 2000 com 1722 votos no PFL. Em 2004, perdeu a eleição no mesmo partido com 2362 votos e se elegeu em 2008 com 1118. Em 2012 perdeu, no PSD com 1606


Vereador Protázio Machado, PMDB (de paletó branco). Eleito com 313 votos em 1988. Nessa disputa 18 candidatos obtiveram mais votos que ele e perderam a eleição.
 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 



DICIONÁRIO DA MARIA
   Vocábulos e expressões açorianas


Minha avó paterna era polonesa, Izaltina Prats. De meu avô Manoel Pereira herdei os vocábulos açorianos que tanto me fascinam, muitos deles nunca reconhecidos pelo Aurélio. Mamãe Maria era perita em linguagem açoriana. Quase tudo que falava tinha a marca inconfundivel da fala cantada, típica do manezês da Ilha de Santa Catarina e arredores. Em homenagem a ela passei a escrever o “Dicionário da Maria”, fantástico apanhado de tudo o que ouvi na vida. Alguns termos ficaram perdidos no tempo, outros surgem de repente em conversas do dia a dia.
Ao visitar minha irmã Jali, a encontrei atatarantada tirando a cascorra da panela. Reclamou estar brasina do assado de forno e prá complicar havia espetado uma talisca muito doída no dedo.
É impressionante a quantidade de palavras e gírias de origem açoriana, que que sempre nortearam a comunicação de nosso povo. Algumas soam rídiculas e engraçadas, mas é inegável que todas são derivativas de fatos e coisas concretas, com muito sentido.
Eu já tive um cabelão e acordava com ele desgrenhado e mamãe dizia: “tá com a cabeça que é um caipora.” Anos mais tarde, descobri numa revista que caipora é um ser mitológico tupi, cuja cabeça bem parece a do Raul Seixas ou do Nando Reis no tempo da banda “Os Infernais”.
O Professor Amaro Seixas Neto em “O falar da Ilha SC” dizia que nosso povo herdou a velocidade lusitana de falar e o som cantado português como no Minho, no Douro, Trás-os-Montes e nos Açores, e muitos vocábulos datam do século XVI. Um tratado sobre o tema é o fantástico “Dicionário da Ilha” de Fernando Alexandre, escritor alagoano que já morou em Florianópolis e trabalhou no Jornal O Estado.

Vamos relembrar algumas dessas maravilhas:

A bença – a benção
A tua que é mais perua – resposta prá quem xinga a mãe
A valença – ainda bem que
Acocar – ficar de cócoras, sobre os calcanhares
Ajutório – Ajuda
Alemoa – alemã
Alumeio – claridade
Amanhece e o boi não brinca – demora
Antes que mali pergunte – desculpe a intromissão
Aprecatar – prevenir
Arcalho – à toa, coisa ou pessoa velha, que não serve prá mais nada.
Argolado – duro, sem grana
Aribu – urubu
Arrastar a asa – paquerar, oferecer-se, ficar a fim
Arrumar prá cabeça – meter-se em confusão, puxar encrenca
Às veras – prá valer, de verdade
Assuntá – prestar atenção
Ataque de bicha – escândalo, convulsões em criança com vernes.
Ataque de pelanca – crise ou ataque histérico, banal
Atoleimada – tola, abobada
Brasina – esfogueada, queimada do sol
Caco – á toa, mala, sem escrúpulos, objeto estragado e sem valor (Aurélio)
Caipora – cabelo desgrenhado, maltratado, sujo, desalinhado
Carcar – empurrar, encher, entulhar
Casqueiro (essa é atualíssima) – viciado em crack, pedra
Curriqueira – mulher que não para em casa, vive fofocando na vizinhança
Dijahoje – ainda a pouco
Derriada – Jogada (na cadeira), estarrada, derreada
Desmazelado – relaxado, mal arrumado, desarrumado
Dor nas cadeiras – dor nas costas
Empalamado – tristonho, doente, fraco, adoentado
Gadanho – garra, unha
Godera – Gulosa
Indês – ovo chamarisco, deixado no ninho, para que a galinha ponha no mesmo lugar
Istepô – não é coisa boa, não presta (pessoa), usado também de forma carinhosa
Istrovar – atrapalhar, complicar, (de estorvo)
Levado da casqueira – danado, perigoso, aprontão, travesso
Lonquear – tirar um pedaço (do corpo) com objeto perfuro cortante.
Malfazejo – malvado, amigo de fazer o mal (Aurélio)
Mandrião – malandro, preguiçoso
Matulo – caroço na pele, cisto, inchaço, calombo
Ontonte – anteontem
Paranho – teia de aranha
Pianço – falta de ar, asma
Pinguelo – pênis, referencia ao órgão genital masculino
Pinta da mãe – xingamento referindo-se à vulva da genitora
Presepeiro – bobo, gabola, palhaço
Puto da cara – bravo, irritado
Rebardaria – bagunça
Telha corrida – esquecido, fraco da cabeça, desmemoriado, doido
Vai prá brisa – vá à merda
Vai te catar – vá as favas
Varijão – homem alto e magro
Vasilha – à toa, caco, sem escrupulos ou princípios.
Zarro – sem vergonha, à toa, que não presta

Cabelo de “caipora”. Como disse Sidney Magal: “esse poodle sou eu”