segunda-feira, 6 de maio de 2013

Memória Política

Carlos Acelino 



Curriqueira
                 “Memória Viva da Cidade”


Elenita quer dizer “pequena Helena”. Conheci poucas Helenas e delas tenho grandes lembranças: Helena de Tróia, pivô de uma guerra, Helena Meireles, a fantástica violeira do Pantanal, que só fez sucesso com mais de 70 anos, Helena Minin, a médica homeopata ucraniana que me livrou de uma depressão em 1982. A mais marcante delas é minha amiga Elenita, que foi registrada sem o “H”, consoante que a mãe Ondina, bordadeira de mão cheia, achava feia para os diagramas das toalhas e roupinhas que bordaria para a primeira filha.
A famosa parteira josefense Diba Gerber trouxe ao mundo nossa Helena, filha de pedessista Benjamin Gerlach, o seu Bejo, cuja casa no coração da praça central se encheu de alegria com sua chegada, em 19 de junho de 1950, ali no sobrado ao lado da Igreja, onde já foi sede da Câmara Municipal em 1999 e 2000, e hoje funciona a Fundação Municipal de Cultura que ela preside.
No vocabulário grego, Helena é palavra derivativa de “Helene”, tocha, luz, bem próprio para nossa memória viva de São José. Elenita é um ser iluminado. Bela, elegante, humana, bondosa, prestativa, articulada, inteligente, acessível, respeitada, política. Esbanja simpatia e hospitalidade, tem sempre as mãos estendidas para o afago e o acolhimento.
Viajada, conhece muitos lugares do Brasil, boa parte das três Américas, a Europa e a Índia.
Seu porto seguro, entretanto, é a imponente casa colonial azul ao alto da praça Hercílio Luz, onde se instalou em 1986 e até hoje vive em companhia do esposo, os filhos Guilherme e Sabrina, os netos Nicolas, Samuel, Marco Antônio e João Guilherme, a cuidadora Claudete, o cachorro Max (homenagem ao amigo Max Hablitzel) e a cadela Gilda. Nesse espaço, a história da cidade predomina em cada peça, foto ou lembrança. Milhares de recordações de outrora, desde os dois copos pintados, presentes das núpcias de Zulma Vaz (do Lar dos Velhinhos) até os cordões umbilicais dos filhos e netos, ressequidos e preservados dentro de livros.
Vez por outra passa os dias em Betânia, Angelina, recanto bucólico que pertenceu a São José, no passado conhecido por Perdidas. Lá Elenita colhe phisalis e outras frutas no pomar, interage com a comunidade luterana, sua religião de origem, ajuda a organizar os festejos de Natal e assiste Gunga, o amor de sua vida criando belíssimas obras de arte no torno de madeira.
Quando menina, Elenita corria as sete senhoras sapeando na vizinhança, comendo na casa dos outros. De uma vivacidade e simpatia contagiante, quando mocinha só queria roupas e paqueras. Muito sapeca, aprontava todas.
Dona Ondina dizia que o que não existia ela inventava. Fez o curso primário no Colégio Francisco Tolentino e concluiu o ginásio no Instituto Estadual de Educação. Nas passagens pela Ilha se encantou por Carlos Eugênio, que morava no Sertão do Maruim, trabalhava desde os 13 anos na empresa do avô. Eugênio Raulino Koerich e cursava o técnico em contabilidade no Sena Pereira. Uma combinação perfeita para matar aula, ir ao cinema, comprar bombinhas na Gruta de Fátima para soltar no pátio do colégio, rodar na 2ª série, namorar por 3 anos, noivar por mais 3 e casar na matriz de São José, em 11.07.1970. Sempre preocupado com a formação dos filhos, seu Bejo a matriculou no Colégio Coração de Jesus no curso normal e a perigosa continuava aprontando. Mentia para os padres, dizendo-se perseguida pelas freiras, por ser luterana e até tinta jogou na pia de água benta, querendo forçar sua expulsão do Colégio, sem sucesso. Já casada concluiu o Magistério em dezembro de 1970. Fez concurso público no Estado e foi lecionar em Águas Mornas, mais tarde sendo transferida como Auxiliar de Direção da Professora Marcilia de Oliveira no Francisco Tolentino onde estudou e passou a dar aulas. Lecionou também em Palhoça, na Praia Comprida, nos Colégios Deise Sales e Anibal Nunes Pires. Formou-se em Letras na UFSC, com especialização em inglês e espanhol e se elegeu Vereadora em São José. Foi Diretora da FCEE e Diretora de Artes da FCC. O gosto pela política, herdou do pai, cuja loja na Praça fechava as 23 horas e era frequentada pelas expressões políticas da época, os Prefeitos Arnoldo e Arnaldo Souza, e João Adalgísio Phillippi, os vereadores Mário Pires, Walter Borges e Jaime Destri e o amável Machadinho, primeiro Prefeito de Angelina, além de muitos caciques que vinham da Capital para um prosa
Agora, Elenita voltou ao berço natal. Queria instalar seu Gabinete no quarto onde nasceu, mas não resistiu aos encantos da Praça, onde trilhou por toda sua vida. Da janela contempla a paisagem enquanto trabalha.
Poucos tem esse privilégio de voltar tão intensamente às origens. No entorno,a Igreja, a Bica da Carioca, a Casa de Câmara e Cadeia, centro do poder político por 133 anos, o Teatro Adolfo Melo, que já sediou o Cine Rajá, onde assistiu ao primeiro filme com Gunga, aos 13 anos. Ainda guarda com carinho a ceninha do filme “A espada de um conquistador”, com Jack Palance, que ganhou de Osni Machado, o projetista do cinema.
A vida de Elenita daria um bom livro. Sua simpatia conquista de pronto as pessoas. Na Câmara Municipal fez sua parte e firmou amizades. Adorava Luiz Raupp, Zé da Padaria e Natal. Até hoje é curriqueira, não pára em casa e vive procurando atividade. Responsável e comprometida, foi escolhida para a missão de zelar por nossa cultura. Aceitou o desafio, sabedora das dificuldades. Se lhe derem caneta, certamente vai revitalizar a centenária Bica da Carioca e tentar restaurar alguns monumentos arquitetônicos da cidade ao relento. Ou talvez reeditar o “Caminho dos Tropeiros”, ao lado do cemitério, onde por muito tempo circulou o progresso da cidade, partindo da Ilha no lombo dos cavalos até Lages.
Sou suspeito para falar de Elenita, pois gosto dela e a recíproca é verdadeira. De uma coisa tenho plena certeza, ela tem amor inestimável por sua Terra e sua gente. Acima de tudo uma mulher josefense de quatro costados.

Memória Política

Carlos Acelino 


CAIXINHA DE SURPRESAS


Apesar de sagrado, e de representar a vontade popular, o voto para mim sempre teve uma aura de prostituta. Não sei bem discernir se foi o povo ou os políticos que o jogaram na vala. Com o tempo, a real importância do voto, ficou relegada a falsas promessas, propostas e ações impossíveis na prática e pedidos absurdos. Em campanha políticos e eleitores mentem constantemente pelo voto e os escrúpulos vão prá cucuia. Num universo de mais de 200 candidatos, as chances de emplacar diminuem a cada atitude impensada do candidato, ou estratégia equivocada na campanha. Afinal, a  disputa é quase igual a um vestibular. No ano passado foram 214 candidatos concorrentes  para 13 vagas.
Já no começo há uma prévia dos possíveis ganhadores, levando em conta a popularidade, a empatia, o uso da máquina, o poder financeiro, e isso já assusta quem concorre.
Para complicar o meio de campo, há o quociente eleitoral, uma conta estranha feita ao final da apuração. Ninguém sabe de antemão quantos votos precisa para se eleger. Assim, pode-se ganhar com poucos votos ou perder com muitos. O quociente eleitoral é o total de votos que cada partido deve obrigatoriamente conseguir, para preencher uma vaga na Câmara, e só é possível obtê-lo após contados todos os votos da eleição, inclusive os brancos e votos de legendas. Os nulos não entram na conta. Dividi-se o total geral de todos pelo número de cadeiras no Parlamento, obtendo-se a quantidade mínima que cada partido deve fazer na totalidade dos seus candidatos para conseguir uma vaga. As sobras ou médias definem as vagas remanescentes.
O cidadão diz que não gosta de política e de políticos, mas adora urna. Basta ver a grande festa que é o dia de eleições. Um grande envolvimento da cidade e sai todo mundo da toca para fazer valer o seu direito e cumprir o dever civil. Chovem piadas sobre candidatos, alguns folclóricos, e muita sacanagem na escolha dos menos piores. Sempre falam mal dos políticos mas quando a água bate na bunda, eles são imediatamente chamados para resolver as buchas.
No cantinho da urna, o cidadão tem o livre arbítrio de manifestar sua vontade e nela depositar anseio ou protesto. Com a inovação da urna eletrônica, foi-se o tempo de escrever sacanagens na cédula. Assim que surgiu a urna digital, lembrei-me da tia Salomé ao discar no seu primeiro telefone. O número seria 32445879 e ela começou a teclar: 3, 2, 4 ... cadê o outro quatro?
Política é a arte de engolir sapos. É o ato de tentar agradar a todos, buscando um incerto resultado eleitoral futuro.
Quantos juraram de pé junto que tinham votado em mim e eu contei até dez para não dizer-lhes uns desaforos, sabedor de suas pendengas com outros colegas candidatos, a quem deviam favores, parentesco, amizade, gratidão e, muitas vezes, emprego. O voto, portanto, é algo indecifrável. Vota- se por amizade, empatia, beleza, inteligência, gratidão, admiração e,lógico, favores. Por mais que se apregoe o interesse coletivo, a maioria dos cidadãos exerce uma cultura atrasada, herança do coronelismo, quando sempre era preciso dar algo em troca para conquistar o voto. Muita coragem é necessária a quem enfrenta o julgamento das urnas, e também muita disposição e paciência no exercício do cargo público. No caso do vereador, certas situações beiram o absurdo. Com a vitória, herdamos todos os buracos das ruas, as valas entupidas, as enchentes, o lixo dos terrenos baldios, a falta de vagas nas creches, de remédios, exames e médicos, a iluminação pública, a insegurança social, enfim, todas a mazelas que devem ser sanadas pelo Poder Executivo. Assim, transfere-se para o vereador aquilo que compete ao prefeito fazer. Na campanha, somos assediados por todos os tipos, a mulher linguaruda, o chopim de gabinetes, o mordedor, o bêbado que abraça, beija e baba no seu ombro, o cara que fala que andas sumido, os que te xingam gratuitamente.
Perdi duas vagas nas eleições de 1988 e 1992, embora sido em ambas bem votado. Coisas da legenda. Na apuração da eleição de 1992 eu disparava na frente a cada mapa publicado.Quando os resultados pararam de ser divulgados já achava que a indústria da sacanagem havia começado a funcionar. A apuração manual levantava suspeição quanto aos critérios utilizados e os conchavos por ventura armados, e quem esperava os mapas sempre ficava com a pulga atrás da orelha. Na rua, em frente ao Ginásio do Sesi, Ângela, minha irmã, estava com o coração na boca. Duas horas se passaram e veio o resultado final que a fez chorar copiosamente, xingando os traíras, enganadores e inescrupulosos eleitores. Finalmente o juiz eleitoral Jaime Vicari apresentou o resultado final da votação e no PDT ele era bem diferente do previsto pelo pai de santo Romualdo, dias antes no salão do Visual, na presença de Hermínio e Jane. Em transe espiritual, ele traçou um risco de giz no assoalho, espetou um punhal no centro e vaticinou: “não vejo ninguém na tua frente”.
Ele não enxergou 14 candidatos mais bem votados na geral e não viu no PDT João do Ovo, Fernando Elias e Gilson Junckes fazendo as três únicas vagas da sigla e me deixando de primeiro suplente por 22 votos. Desalentado, já como suplente, murmurei baixinho: “não sei como eles conseguem enganar tanta gente!”. Mas tudo bem, eu estava vivo, e achava que política não era prá mim. Já havia amargado 4 anos como primeiro suplente de Agostinho Pauli, PSC, o mais votado no município em 1988, 805 votos. Num tempo em que suplente não gemia, e nem tinha vez mesmo, assumi a Câmara por 32 dias, uma gentileza de Agostinho, pois o governo Diocéles ignorava totalmentre os suplentes.
Meu primeiro debu nas urnas foi em 1988, pelo PSC, o Partido do peixinho, em campanha com santinhos xerocados. Agostinho também disputava na sigla e rodava o bairro inteiro de bicicleta, conquistando a única vaga do peixinho. Embora bem votado, o 11 na classificação geral para uma Câmara de 19 cadeiras, fiquei em segundo lugar, 486 votos. Solange Hermes e João Bittencourt Furtado eram os suplentes subsequentes, 325 e 310 votos, respectivamente. Bem que na campanha, os adversários já agouravam para eu ter cuidado com a bicicletinha do Agostinho. Meu cabo eleitoral Dé ficou arrasado com minha derrota e disse que não ia comer peixe por um bom tempo.
Desacorssoado, jurei nunca mais disputar eleição e fui morar em Balneário Camboriú, gerenciando o Hotel Marambaia. Gegê e Dário lá surgiram em 1995 querendo me filiar no PFL, o tubarão dos partidos, onde só as feras do voto emplacavam: Ademar Koerich, Juquinha, Adi Xavier, José Natal (mais votado em 1992), Édio Vieira, Capitão, Vanildo Macedo davam as cartas do difícil jogo eleitoral e o tom da campanha de 1996.
Preocupado com a legenda, Édio disse-me que era a vez de eu comer um peixe grande, pois só tinha perdido em partidos nanicos. Convenceram-me de que eu teria chance, pois Dário era candidato a Prefeito, e o Capitão se debandara para o PMDB. Ou seja, troquei seis por meia dúzia, pois o Partido agora tinha João do Ovo no plantel e a perspectiva não passava de 7 vagas. Sem contar os papas que disputavam em outras legendas, Orvino, o imbatível, Gilson Junckes, Fernando Elias e os iniciantes Luiz Raupp, Zé da Padaria, Elenita, Candinho Filho, Paulo Ferreira, Eugênio Cunha, Maria das Graças, Macarrão e Nilson Merize, todos finalmente eleitos comigo, que fiz a sexta vaga do PFL na média, com as calças na mão, 1324 votos.
De lá pra cá, não perdi mais nenhuma. Fiz 1968 votos em 2000, em 2004 não concorri e emplaquei 2870 em 2008. Agora, só lembranças e a convicção de que não posso reclamar de minha vida política. Fui um vitorioso.
Foram 25 anos na estrada, milhares de atendimentos a qualquer hora no portão, e a vivência de tantos embróglios, falsidades, brigas, discussões, saias justas, conspirações, conflitos e cenas hilárias que dariam um livro.
Pelo menos, a gente se diverte bastante. Em 2000, Geraldino dos Passos reclamou no comitê do PFL que haviam desenhado um pênis em toda as suas placas do Kobrasol. Querendo, confortá-lo disse para ignorar o episódio. É assim mesmo, em toda eleição a gente recebe afagos, aplausos, desaforos e até a sanha de cabos eleitorais tinhosos. Imagine você, Geraldino, que numa placa minha do Bela Vista, escreveram “viado”, desenharam um pênis e colocaram um bigode fu-man-chu.
Perguntado sobre as providências tomadas disse-lhe: “Mandei tirar o bigode”.




Vereador Altevir Schmitz (PSDB): Fez 654 votos na eleição de 2000 e se elegeu. Na mesma eleição Edilson Vieira perdeu a vaga no PPB com mais do que o dobro (1366).


Vereador Edilson Vieira: Perdeu em 2004, com 2230 votos. Elegeu-se com 1397 em 2008 e na última eleição ficou de fora com 2072.


Vereador Lédio Coelho – Eleito em 2000 com 1722 votos no PFL. Em 2004, perdeu a eleição no mesmo partido com 2362 votos e se elegeu em 2008 com 1118. Em 2012 perdeu, no PSD com 1606


Vereador Protázio Machado, PMDB (de paletó branco). Eleito com 313 votos em 1988. Nessa disputa 18 candidatos obtiveram mais votos que ele e perderam a eleição.